domingo, agosto 26, 2007

Último sábado de agosto: Três alegrias de um cordelista

Sábado, vinte e cinco de agosto. Uma tríplice alegria renova meus ânimos e me faz cada vez mais acreditar na força da poesia popular.

Primeira: A Unicordel classifica mais gente sua (A dupla Adiel-Kerlle) para a final da Recitata (e olhe que foi novamente em primeiro lugar), que juntar-se-ão a Mariane e Altair na grande Festa do Livro, neste domingo, lá na Praça do Arsenal. Agora a torcida é grande para que os quatro mais uma vez sejam vitoriosos e conquistem os primeiros prêmios;

Segunda: Transformo a proposta de oficina de cordel que aconteceria no Instituto Ricardo Brennand numa prosa prazerosa e emocionante sobre o universo do cordel com as quatro participantes inscritas (inclusive Cida, que tinha ido lá apenas para me acompanhar). Muito revelador o depoimento da sergipana Sônia, tanto trazendo suas reminiscências de leitora de cordel nos seus dias de infância na sua cidade natal, Própria, quanto declarando sua emoção em ter participado deste encontro e ter feito uma “viagem” no tempo e na memória. Registro também para a jovem estudante Camila (Cefet-PE), tão entusiasmada com o cordel, e para Áurea, salgueirense funcionária do IRB que sempre se faz presente nas nossas intervenções naquela aprazível espaço cultural. Momento de agradecer a Nicole Cosh pela oportunidade e ao Carlinhos, monitor tão atencioso e prestativo que não deixou faltar nada e nos deixou tão à vontade.

Terceira: Encerrando o dia, a participação da Unicordel na campanha McDia Feliz, na loja do McDonalds da Agamenon Magalhães. Fazendo uma dobradinha com a talentosa banda Sistema Límbico e diante de uma platéia atenta e receptiva, eu e os companheiros Altair Leal, Cícero Lins, Adiel Luna e Felipe Júnior lançamos nossos versos e de poetas consagrados como Chico Pedrosa, Dedé Monteiro, Zé da Luz, Amazan, Daudeth Bandeira, Bráulio Tavares e Vinicius de Moraes. Destacou-se um grupo de jovens garotas que se mostraram encantadas com o nosso trabalho, a ponto de uma delas dirigir-se até nós para dar os parabéns pelo recital que fizemos, cumprimentando-nos um a um.

Pequenas demonstrações de admiração e reconhecimento como estas são fontes de estímulo e ajudam-nos a superar as dificuldades que encontramos ao longo desta jornada de busca da valorização do cordel, da poesia popular.

Daqui a pouco estarei na Praça do Arsenal. Eu, os companheiros da Unicordel e os amigos da poesia, para a grande Festa do Livro. Mais alegrias nos esperam lá.

domingo, agosto 19, 2007

Unicordel fazendo bonito na Recitata!!!!


Mariane Bígio (1º lugar) e Altair Leal (3º lugar) - Unicordelistas
classificados na primeira eliminatória da II Recitata.
(Foto de Susana Morais)


Mercado da Boa Vista. Sábado de muita expectativa e emoção. Primeira eliminatória do Recitata. Chego às dez horas, muitos poetas já presentes, confirmo minha presença junto à organização do concurso e, ao lembrar que meu desjejum só havia sido um copinho de manguzá do Jalon na feira de orgânicos da Praça de Casa Forte, vou até o Bar do Batatinha comer um cuscuz com guisado, pra forrar o estômago e me preparar pra agüentar o rojão do dia.


Mais poetas vão chegando, e seus amigos também, para torcer ou apenas se embebedar com a poesia que o dia promete. E não só com a poesia, porque doses e garrafas de cerveja começam a enfeitar mesas e balcões, inclusive a minha, é lógico! Beto, Batatinha, Leleu, Cristina, Come Quieto e outros mais supridores de bebidas e iguarias também serão coadjuvantes desta festa que se arrasta ao longo da tarde e arrisca entrar pela boca da noite.

Festa para a Unicordel. Entre os quarenta e quatro concorrentes do dia, nove fazem parte do nosso movimento (Honório, Mauro, Ângela, Valério, Evangelista, Cícero, Mariane, Altair e Felipe). Todos fizeram bonito, mandaram bem o recado, deixaram a poesia popular em evidência. Dois sagraram-se vitoriosos e vão pra final (Mariane, em primeiríssimo lugar e Altair, em terceiro), e por uma peinha de nada não emplacamos o terceiro. E Felipe merecia. Mas a peneira era muito fina e concurso tem disso.

A vitória d´A Mãe que Pariu um Mundo foi mesmo justa e merecida. Este primeiro cordel (ainda inédito, mas que possivelmente será lançado na Festival do Livro, domingo próximo) de Mariane tem tudo pra se tornar um clássico (diria até que já é) da poesia popular. Sinto-me feliz em ter colaborado para que ela se envolvesse com esse nosso mundo do verso e entrasse para a tropa da Unicordel. Pena não ter muito tempo pra gente por conta dos estudos e de outras prioridades, mas é um orgulho termos na Unicordel essa jovem, talentosa e bela garota de dezenove anos, sendo ela também um exemplo de renovação no cordel, tanto no que se refere à idade, quanto à presença feminina. Eis alguns trechos deste belíssimo poema:

“Antes era o universo
Um vão negro de dar dó
Tinha nada, só estrelas
Feitas de brilhante pó
Espalhadas pelo Vento
Que então reinava só.

O Senhor do Infinito
Cansou da escuridão
Teve idéia de fazer
A grande rebelião:
Tomou uma das estrelas
E a pôs em sua mão

Disse: estrela! oh, estrela!
Me cansei de ser sozinho
Nem o Vento é meu amigo
Pois é rei e é mesquinho
E também cansei do preto,
Que enegrece meu caminho

Sou Senhor do Infinito!
Quero muito colorir!
O universo é a tela
E de ti há de surgir
A mais prima obra-prima
O Mundo irás parir!

Nessa hora, emocionado
O Senhor lacrimejou
Uma água doce , cálida
Pela face lhe rolou
Pranto-sumo, seiva bruta
À estrela alimentou.

Esta fez-se então mulher
Com os seios volumosos
Com as ancas abarcantes
Os quadris voluptuosos
Já no âmago levava
Os pinguinhos preciosos...

Bem longe da proteção
Daquele que lhe criou
Ela descansava leve
Quando o Vento a rondou:
Sinto falta duma estrela
Acho que Ele roubou!

Amaldiçoada seja,
Tua cria ao nascer!
Vejo brilho no teu rastro!
És estrela, posso ver!
No Mundo que vai chegar
Vis desgraças hão de ter!

O Senhor ao escutar
Acudiu em seu favor
Fez do Vento simples brisa
Pra soprar quando calor
Acalmou a prenha-astral
E beijou-lhe com amor.

De repente houve um estrondo
A mulher soltou um grito...
Uma água caudalosa
Pingou do ventre contrito
Cheia de sal e de vidas
(Eis o Mar aqui descrito)

Logo após a enxurrada
Veio então a dor imensa
Pois o sólido doía
De maneira muito intensa
A mulher acocorou
Fez dos braços uma prensa

Finalmente um grito mudo
Era um “ai” do coração
Uma gota de suor
Gotejou na imensidão
E o Mundo foi expulso
Com enorme profusão...

A mulher aliviada
Ali mesmo adormeceu
Com o peito apertado
Que nem ela entendeu
Queria afagar o Mundo
Tê-lo sempre ao lado seu

O Senhor , pra terminar
Sua imensa aquarela
Fez com a ponta do dedo
Mais uns pontos nessa tela
Fez o Sol, astro maior
Bola de fogo-amarela

E assim o Mundo segue
Com o Mal e com o Bem
Pois a maldição do Vento
Fez-se fato aqui também
Mesmo que sua mãe vele
A tristeza vive aquém

Quase ao fim, urge lembrar
O Mundo é bom em essência
Fruto de vontade pura
Colorindo a existência
Foi nutrido com o líquido
Da bondade em excelência

Há desgraças é verdade
Mas há muita alegria
Seus filhos conhecem dor
Mas o Amor em primazia
Reina no fundo do ser
Em cada um, cada dia.”

Sábado que vem tem mais. Kerlle com Adiel, Madalena Castro, Meca Moreno e Susana Morais. Vamos torcer para que tenha mais unicordelista no domingo, lá na Praça do Arsenal, Recife Antigo, na final do Recitata, que acontecerá durante a Festa do Livro, a partir das 14 horas.

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Em tempo: Além dos nossos companheiros, a poesia popular foi defendida pelos amigos cordelistas Edvaldo Bronzeado, Júnior Vieira e Alberto Oliveira.

sexta-feira, agosto 17, 2007

Biblioteca do Coque - Barba, Cabelo e Bigode!!

Através do Estuário, blog do camarada Samarone Lima, tomei conhecimento da inauguração da Biblioteca Popular do Coque. Seu relato apaixonado (como sempre) despertou em mim a vontade de também ser cúmplice dessa história. Pensei que o cordel podia ser a ponte e assim aconteceu. Nesta sexta, reconstitui os passos do meu cronista preferido e às oito horas estava lá na Estação Joana Bezerra, esperando alguém que iria me conduzir até a biblioteca onde em seguida eu ministraria uma oficina com os jovens da comunidade. Tirei uma folga do trabalho só pra me presentear com esta manhã prazerosa, falando daquilo que gosto e procurando despertar nos que me ouvem um pouco do encanto que tenho pela poesia popular. Fiz novos amigos, acredito que joguei sementes. E à boquinha da noite, eu e alguns companheiros da Unicordel (João Campos, Susana Morais, José Evangelista e Geraldo Valério) lá estivemos para a inauguração da Cordelteca, o acervo de folhetos de cordel doados pelos unicordelistas e pela Editora Coqueiro. A tarde se despediu embalada por nossos versos e a noite chegou anunciada pelo batuque dos meninos de lá. Fizemos barba (oficina, nada a ver com Samarone), cabelo (recital, também na a ver com Samarone) e bigode (cordelteca).

Parabéns a todos envolvidos com a biblioteca. A prudência de não citar nomes para evitar omissão indesejada fica em segundo plano diante do impulso de registrar a satisfação de ter conhecido Betânia, Rato, Rahyssa, Berg, Thaynara, Amanda e tantos outros.

O sonho de Betânia se espalha nos corações de quem chega perto e certamente há de continuar se expandindo muito além do que se hoje se projeta. Ajudando a realizar outros sonhos, como é o meu de ver o cordel realmente popular, ou seja, no meio do povo.

Queria estar lá novamente amanhã, ouvindo a palestra de Samarone, mas este sábado é dia de Recitata e estarei no Mercado da Boa Vista participando da primeira eliminatória deste concurso. Torçam por mim!

domingo, julho 29, 2007

Unicordel no Festival de Inverno de Garanhuns




Garanhuns abriu seus braços
pra receber o cordel
no Parque Euclides Dourado
fizemos nosso papel
levamos versos à praça
com raça, malícia e graça
com faz bom menestrel.

Sábado, 21 de julho. 12 integrantes da Unicordel levaram os versos da poesia popular à biblioteca do Parque Euclides Dourado, dentro da programação do Festival de Inverno de Garanhuns. Platéia atenta e participativa. Aos poucos vamos abrindo novos espaços, conquistando novos admiradores do cordel e tendo mais convicção que estamos na trilha certa.

Neluce, Meca, Felipe, Altair, Ivanildo, Severino, Esperantivo, Davi, Evangelista, Dunga, Kerlle: Companheiros que me deram esta alegria de ver estampado nos olhos dos ouvintes o encanto por essa arte que me move e me alimenta.

Outros lá não estiveram por motivos vários, mas também são parceiros nessa história que está sendo escrita com a tinta da cumplicidade.

domingo, julho 15, 2007

Cordel na Fenneart


Susana e Neluce no espaço Unicordel (Fenneart-07/2007)

Hoje deixo de lado os versos, embora continue tratando do meu envolvimento com a poesia popular. Sinto necessidade de falar desta experiência de ver a Unicordel presente na FENNEART (www.pe.gov.br/fenneart), ocupando um espaço em um dos estandes de Pernambuco na área do PAB-Programa do Artesanato Brasileiro.

Neste sábado, penúltimo dia da feira, fiquei quase o dia inteiro por lá, junto com alguns companheiros cordelistas, dando uma força a quem estava de plantão e proseando com os poetas que se fizeram presentes. E esta permanência no local me propiciou alguns momentos de grata satisfação que tiraram um pouquinho do azedume característico desses últimos dias: 1º) Ficar o tempo todo admirando as peças de Luiz Galdino, aquelas "caboclas" sensuais do colo desnudo que ficam provocando o desejo de passar a mão pra sentir a maciez da "pele" daqueles seios que o artista reproduziu com refinado acabamento; 2º) Ouvir uma visitante lançar os olhos sobre a camisa da Unicordel e declarar: "Que camisa maneira, meu!"; 3º) Receber o convite para escrever um cordel para ser distribuído como lembrança de um casamento que só deverá acontecer daqui a uns dois anos; 4º) Ver nosso companheiro Davi Teixeira, cordelista e bonequeiro, passeando entre os visitantes com seu Bastião, e seu Zé Preto, fazendo seus bonecos lerem cordel e cantarem junto com os seresteiros que desfilaram nos corredores da feira; 5º) Observar, de longe, João Guilherme (um guri de sete anos, filho da amiga poetisa e jornalista Rossana Fonseca) sentadinho lá num canto do estande, lendo compenetradamente o cordel que professor Adelmo escreveu para o Sport; 6º) A declaração de um senhor que ao saber do preço pelo qual estávamos vendendo nosso cordel (R$ 1,50), disse que na sua opinião o cordel valia era R$ 150,00.

Isso não tem preço!!!!!!!!

terça-feira, julho 10, 2007

A HISTÓRIA DO POBRE E DO JUIZ ou A DIGNIDADE É UM SAPATO

Autor: Paulo Moura (Dunga) *


No tempo do meu avô
Dizia-se com clareza
Que um fio de bigode
Representava nobreza
Ou então a afirmação
De que: - Vou cuspir no chão!
Era sinal de firmeza.


Que beleza não põe mesa
Todos já devem saber
E de que julgar alguém
Sem sequer lhe conhecer
É uma idéia falha
Porque, às vezes, gentalha,
É quem está no poder.


Certo dia ouvi dizer
Que o JUIZ de uma cidade
Do auge da competência
De sua autoridade
Se recusou receber
Um homem, por ofender
A sua dignidade

A “ofensa” ou maldade
Que esse homem do mato
Cometeu com o JUIZ
Não foi algo insensato
O POBRE foi recusado
Na sala do magistrado
Porque tava sem sapato

O JUIZ, de fino trato
Não gostava de gentalha
Reclamou ao tabaréu
Porque estava de sandália
E que naquela audiência
Na frente da excelência
Era uma terrível falha

Sem ter alguém que lhe valha
O POBRE homem inato
Chorando disse ao JUIZ
Doutor, não sou insensato,
Sou honesto, embora pobre
Sou desprovido de cobre
Para comprar um sapato

Diante daquele ato
A imprensa acudiu
Saiu no noticiário
Todo o mundo assistiu
“Trabalhador recusado
Porque estava calçado
De forma indigna e viu”


Como ninguém lhe aplaudiu
O JUIZ foi consultado
Pediu desculpas ao povo
Achou ter “exagerado”
Não sabia que o pobre
Não tinha lá muito cobre
E deu o caso encerrado.


Novo dia foi marcado
Para a nova audiência
A imprensa foi atrás
Pra ver Vossa INCELÊNCIA
Destrinchar o veredicto
Pois era homem contrito
De muita classe e decência


Só não tinha consciência
De estar tão equivocado
Porque a honra de um homem
Não esta no seu calçado.
Vestido com mais “decência”
O POBRE foi pra audiência
Com um sapato emprestado

E estava bem apertado
Pois de número menor
O seu sogro lhe emprestou
Porque dele teve dór
Visando grande sacada
O juiz da palhaçada
Fez algo ainda pior


Pensando ser o maior
O JUIZ rico e astuto
Na frente dos jornalistas
Presenteou o matuto:
Bem limpinho e engraxado
Um par de sapato usado
Mas que não era fajuto!


“De aceitar eu reluto!”
Lhe exclamou o rapaz
Um presente do senhor
Eu não vou querer jamais...
Na terra em que fui criado
Os que mais andam calçados
É que são os marginais...

* = Paulo Moura (Dunga), poeta-cordelista membro da UNICORDEL-União dos Cordelistas de PE, pesquisador do Cangaço e Sócio da SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço).Tem diversos Cordeis publicados, quase todos fazendo referencia ao Cangaço. Profere palestras sobre Lampião e o Cangaço e sobre a Literatura de Cordel.

Contatos: 81 9421 2653 ou paulodunga@bol.com.br

domingo, julho 08, 2007

TRADIÇÃO E CONTEMPORANEIDADE NA LITERATURA DE CORDEL


Este será o mote para o Curso de Férias que será realizado na Faculdade Integrada do Recife-FIR, pelo cordelista José Honório da Silva, no período de 17 a 20.07.07, das 19 as 22 horas.

Com mais de vinte anos de dedicação à poesia popular nordestina, tanto como poeta quanto como pesquisador, já tendo publicado cerca de cinquenta folhetos, além de realização de palestras, oficinas, debates e recitais, o cordelista irá propiciar aos participantes do curso uma visão panorâmica e atual do mundo encantado do cordel, explorando suas origens e influências, suas estruturas e componentes, assim como a relação do cordel com as outras vertentes da poesia popular e manifestações afins (embolada, repente, samba de maracatu, aboio, xilgoravura, etc.) e com os novos recursos tecnológicos e midiáticos.

O curso se destina tanto aos que pretendem se dedicar à produção poética quanto aos que querem aprofundar seus conhecimentos a respeito da poesia popular nordestina e aplicá-los nas mais diversas atividades (Educação, Comunicação Social, Publicidade, etc).

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Inscrições
Valor: R$ 25,00
Maiores informações:
Telefone: 2101-8326
Site: www.fir.br
Email: extensao@fir.br

domingo, junho 24, 2007

MEU SÃO JOÃO COM CAROLINA

A juventude moderna
só quer saber de folia
acha pouco o carnaval
para a farra e para orgia
criou os fora de época
inspirando-se na Bahia.

Há Micaeiro, Micaru
Micarande, Carnatal
Micarina, Garanheta,
Recifolia e Fortal,
Micaroa, Micaju,
Micaré e o escambau.

Tá vendo, nenhuma dessas
mexe com minha emoção
não tem nenhuma importância
não cala no coração
do jeito que me emociona
as festas de São João.

Tá certo que tem São Pedro
e o Santo casamenteiro
(Santo Antônio), mais nenhum
se compara, companheiro
com São João do carneirinho
este sim, é mais festeiro.

As más línguas dizem que
é chegado a uma sesta
uma madorna, uma palha
não sei se a verdade é esta
mas dizem que ele dorme
até no dia de sua festa.

Bem que o povo sempre tenta
despertar o dorminhoco
solta grande foguetório
e haja estrondo e papoco
pra ver se ele acorda e vem
conosco brincar um pouco.

Mas nem bomba, nem girândola,
nem foguete, nem rojão,
buscapé, traque, pistola
peido-de-véia ou vulcão
são capazes de acordar
o santo da animação.

Nem por isso a gente deixa
de festejar o seu dia
num mutirão se prepara
tudo com muita alegria,
as bebidas, o dicomê,
e o ambiente da folia.


O meu São João de menino
era acender estrelinhas,
lágrimas, traques-de-sala,
chuva-de-prata, bombinhas,
assar milho num espeto
e brincar de adivinhas.

Tinha uns que praticavam
um ato muito insensato
que sempre achei que era errado
(eles achavam um barato):
amarrar uns fogos de estouro
em algum rabo de gato.


Quando tornei-me um rapaz
mudei pois de brincadeira
ia com meu pai pra mata
para arranjar a madeira
e cortava satisfeito
a lenha para a fogueira.

Depois fazia a latada
bem na frente do terreiro
limpava, batia o barro
pro bate-coxa maneiro
cobria então com capim
ou com palha de coqueiro.

Ainda ajudava mãe
ralar milho e ralar coco
porque dentro da cozinha
era mesmo coisa de louco
mas pra festa ser porreta
valia qualquer sufoco.

Então lá prás cinco horas
parava de trabalhar
do cacimbão eu tirava
água para me banhar
me trancava lá no quarto
e ia me ajeitar.

Vestia a roupa novinha
comprada lá na cidade
calçava até um sapato
que para bem da verdade
era sempre muito apertado
não me deixando à vontade.

Naquele tempo era doido
pra ter uma namorada
mas era muito acanhado
nunca enfrentei a parada
e reclamava da sorte
sem nunca ir à caçada.

Pai acendia a fogueira
meu tio soltava um balão
meus irmãos queimavam fogos
na ponta de um tição
mãe terminava as comidas
e vô tomava um quentão.

E pouco a pouco ia chegando
o povo da redondeza,
os compadres de meus pais,
Tio Dito, Tia Tereza
e o melhor, minhas primas
Das Dores, Neves e Andreza.

Com pouco mais Zé da Vagem
um dos grandes sanfoneiros
chegava trazendo o fole
juntamente com os parceiros
Tõe Zinebra do triângulo
do zabumba, João Medeiros.

Com o trio lá na latada
principiava a festança
o repertório do rei
(que não sairá da lembrança)
animavam os forrozeiros
ralando pança com pança.


Quem gosta dum rala-bucho
aproveita a ocasião
pra se esbaldar no forró
porque não falta opção:
quadrilha, xote, xaxado,
ciranda, coco e baião.


Logo a poeira subia
de tanto o povo dançar
era preciso vez em quando
então o salão molhar
sobre o reclame do povo
que não queria parar.


Mesmo com tanto alvoroço
eu não tinha muito agrado
eu tomada umas batidas
olhava meio de lado
mas não encontrava jeito
de me sentir animado.

Gostava do movimento
mas ficava só por fora
via o povo no forró
e me sentia um caipora
e pensava assim comigo:
inda vai chegar minha hora.

Mas uma vez, meu compadre
tive um São João diferente
foi um São João tão pai d’égua
que mexeu com minha mente
eu já não era mais o mesmo
daquele dia pra frente.

É que mesmo com vergonha
cismei de participar
duma quadrilha que Neves
inventou de preparar
e eu fiquei todo cabreiro
do convite recusar.

Na quadrilha foi meu par
Carolina, sua amiga
dessas meninas modernas
que sempre mostra a barriga
e os roliços das coxas
e pros faladores não liga.

Desde pequena morava
com uns tios na capital
mas seu pai soube umas coisas
que não achou muito legal
trouxe então ela de volta
pra sua terra natal.

Pois bem, no primeiro dia
que a gente foi ensaiar
vestiu um short bem curto
apertado de lascar
e um tal de bustiê
somente pra provocar.

E eu ali todo matuto
como quem não quer querendo
achando que a danada
nada em mim estava vendo
vestia-se assim desse jeito
mas não era se oferecendo.

E haja "xis", "grande roda"
"Olha a chuva", "balancê",
"Caminho da roça", "serrote",
"passeio de dama", "ganchê",
"bolo de noiva", "cobrinha",
"changê de dama", "voltê".

E quem disse que eu acertei
os passos naquele dia
passava os pés pelas mãos
foi a maior agonia
e Carolina mangando
dos erros que eu fazia.

Perguntou: por que você
não tá dançando direito?
Lhe respondi positivo
mesmo assim meio sem jeito:
- é que ocê com esses trajes
abala qualquer sujeito.

Ela riu toda marota
mas disse sem se alterar:
vou lhe dar mais uma chance
para você melhorar
se isso não acontecer
vou arranjar outro par.

Ouvindo isso, meu amigo
enchi de ar o pulmão
e disse a ela: tá certo
não irei errar mais não
Tá vendo que eu não queria
perder aquele avião!

Me concentrei direitinho
nas ordens do marcador
não troquei mais nenhum passo
parecia um professor
de dança, e Carolina disse:
Aí sim, eu dou valor.

Daquele dia em diante
eu só tive um pensamento
de chambregar com Carolina
imaginando esse momento
de tanto sonhar com ela
quase tive um passamento.

Até que chegou o dia
da grande festa esperada
a quadrilha estava pronta
devidamente ensaiada
as roupas de chita, belas
E a tropa toda animada.

As fogueiras já ardiam
clareando o meu Nordeste
pois na noite de São João
esta terra se reveste
de um brilho que se estampa
em todo cabra-da-peste.

Dançamos nossa quadrilha
tudo saiu na medida
Carolina estava bela
com linda roupa vestida
cheia de renda e babados
sobre a chita colorida.

A sanfona deu um tempo
então fomos convidados
para provar das delícias
dum cardápio variado:
muita canjica, pamonha,
milho cozido e assado.

Angu, xerém, manguzá,
pé-de-moleque, paçoca,
mais bolo souza leão,
e bolo de mandioca,
manuê, bolo de milho,
arroz-doce e tapioca.

O fole roncou de novo
e Carolina eu chamei
pro salão pra dançar xote
ela aceitou, eu vibrei
depois de umas 03 músicas
tomei coragem e lasquei:

Chamei pra ir lá pra fora
tomar um pouco de ar
saímos pois de mãos dadas
num tronco fomos sentar
um sentimento atrevido
mais alto pôs-se a falar.

Olhei dentro de seus olhos
pareciam dois tições
ardendo assim de desejos
de recolhidas paixões
então beijei-lhe de súbito
sob estouros de rojões.

Ela beijava e arfava
como um fole de oito baixos
eu cheirava seu cangote
fungando sob seus cachos
num remelexo que só
há entre as fêmeas e os machos.

Nosso forró teve fim
como tem fim a fogueira
tive outras Carolinas
por essa vida estradeira
mas nenhuma inda apagou
as lembranças da primeira.

FIM
Timbaúba-PE, Abril - 97

sábado, maio 26, 2007

A BRIGA DO GALO COM O PEIXE (*)
PRA TER DIREITO À CONCÓRDIA
Autor: José Honório da Silva

Que nosso Galo é de briga

O seu hino já falou
É por isso que Enéas
Mais uma vez provocou
E o Peixe que não é mole
Não bateu fofo, peitou.

O espaço da folia
Está sendo disputado
Pelos patrocinadores
Que investiram um bocado
No Carnaval como um todo
E neste bloco afamado.

A disputa entre as cervejas
Há muito vem acirrada
Se Nova ou desce redondo
Pouco importa, camarada!
Porque o povo bem sabe:
A boa mesmo é gelada.

Quer no rádio ou na tv
Nos horários de audiência
A propaganda é constante
Detonando a concorrência
Cada qual tenta mostrar
Que detém a preferência.

Mas briguem por lá que eu
Partido não vou tomar
Tendo “ceva” eu tomo todas
Isto jamais vou negar
Mas não tendo basta frevo
Para eu desembestar.

Além disso em briga alheia
Não sou de meter o dedo
Eu só sei que Deus querendo
Eu estarei logo cedo
Fazendo o passo no Galo
Sem ter um tico de medo.

No Galo se vê de tudo
Em termos de carnaval
Tem o frevo que domina
Sendo o prato principal
Nesse banquete de ritmos
Que levantam nosso astral.

Tem abre-alas, baianas
Toureiros e mandarins
Passistas, porta-estandartes
Tocadores de clarins
Tem colombinas faceiras
Pierrôs e arlequins.

Palhaços, xeiques, piratas
Odaliscas, enfermeiras
Bailarinas, normalistas
Diabos, padres e freiras
Onças, anjos, gatas, noivas
Tiazinhas, feiticeiras.

Tem folião casual
Que não vai fantasiado
Usa bermuda e camisa
Um sapato já sambado
Se embala com o frevo
E faz o passo rasgado.

Gente que vai pelo frevo
Pelo embalo da folia
Gente a fim de se dar bem
No xumbrego da orgia
Seja qual for o motivo
No Galo se extasia.

Aos que lhes falta coragem
De juntar-se à multidão
Por medo, por preconceito
Por qualquer limitação
Há camarotes pra quem
Puder gastar seu carvão.

Mas o bom é ir pro meio
Do povo que se atropela
Quando do trio se ouve
“Você diz que ela é bela...”
A pernambucanidade
É aí que se revela.

Tem casado que dá drible
Na mulher e vai sozinho
Diz que vai fazer um bico
Combina com seu vizinho
Passa o dia na muvuca
Chega em casa bem quietinho.

Tem também mulher que vai
Escondida do marido
Veste um short, calça o tênis
E diz pra ele: - Querido
Eu vou lá na costureira
Para provar um vestido.

Tem gente cheirando lança
Pra ficar numa maior
Cheira loló, cheira cola
Eu não sei o que é pior
Prefiro cheirar cangotes
Molhadinhos de suor.

Lá no Galo todos brincam
Numa só cumplicidade
Criança, jovem, coroa
Folião de toda idade
Acompanhado ou sozinho
Quer seja ou não da cidade.

Muitos dos que lá não vão
Gostariam de poder
Mas o que pode e não vai
Eu não consigo entender
Só lamento que não saiba
O que está a perder.

Infelizmente também
Tem os pais desnaturados
Que levam os filhos e não
Têm os devidos cuidados
Não os protegem do sol
E nem dão água aos coitados.

No Galo também tem gente
Que não vai pra brincadeira
São lanceiros bem atentos
Aos que estão de bobeira
E depois que dão o lance
Lá se foi sua carteira.

Tem quem vai com o propósito
De provocar confusão
Passa a mão na bunda alheia
Dá pisada e beliscão
Cantando mulher dos outros
Dando soco e empurrão.

Fazem para aparecer
Para mostrar valentia
Pensando ganhar cartaz
Perante alguma guria
Porém nem mesmo conseguem
Estragar nossa alegria.

Mulheres que se aproveitam
E dão corda aos donjuans
Comem, bebem às suas custas
Olhando pra suas cãs
E na “hora da verdade”
Desaparecem nas vans.

Tem cara que força a barra
E às minas dão bebidas
No intuito de deixá-las
Fogosas, desinibidas
E assim tê-las nas malhas
De suas mãos pervertidas.

Tem travesti exibindo
A forma siliconada
Sobre dois palmos de salto
Levando vaia e dedada
Dos gaiatos de plantão
Que não deixam passar nada.

Tem sapatões que se vestem
De soldado ou de palhaço
Com cachaça na cachola
Entram logo no amasso
E sem ligar para o povo
Tome beijo e tome abraço.

Tem o que vende comida
Daquelas comeu-morreu
Ganhar o mais que puder
É este o desejo seu
Mesmo que fique doente
Quem seu quitute comeu.

No começo é maravilha
Mas depois de certa hora
A cerveja só vem quente
O calorão estupora
As brigas se intensificam
O melhor é ir embora.

Digo que as almas sebosas
Jamais serão empecilho
Para que o Galo sempre
Mantenha firme este brilho
E um pai possa brincar
Trazendo no braço o filho.

No bairro de São José
O Galo tem endereço
Muitos lá se equilibram
Outros viram pelo avesso
Se para uns basta o Galo
Pra muita gente é o começo.

Nos versos quase finais
Eu grito: “Ei Pessoal!...”
O Galo da Madrugada
É mesmo “felomenal
Mas o Carnaval da gente
Faz-se multicultural.

A nossa festa maior
É cultura que lateja
A alma pernambucana
Pelas ruas se despeja
Levando alegria ao povo
Onde quer que ele esteja.

FIM Fevereiro/2005

(*) - O "peixe" do título é o secretário de
Cultura do Recife, João Roberto Peixe, com
quem a direção do Galo da Madrugada
travou um embate por conta das cervejarias
patrocinadoras.


Homenagem prestada ao poeta pelo Colégio Boa Viagem (Recife-PE), por ocasião do IX Concurso de Literatura de Cordel, realizado durante a XI Semana da Cultura, dentro das comemorações dos 40 anos de criação deste conceituado estabelecimento de ensino.


sábado, maio 05, 2007

Regina Casé: Do Planeta Legal para a Periferia



Ela esteve no Recife esta semana (02/05-07), participando do seminário Estética da Periferia: diálogos urgentes, coordenado pela pesquisa Heloísa Buarque de Holanda. Essa foto aí é de janeiro/96, quando ela esteve em Timbaúba me entrevistando para o programa BRASIL LEGAL, que foi ao ar em Julho/96.

quinta-feira, abril 26, 2007

Raquel e Saldanha ou Essa mulher é demais!!!


(versos de José Honório)

O mundo dá muita volta
não pára nenhum segundo
e muita gente é assim
vive a rodar pelo mundo
ora aqui, ora acolá
porém sem ser vagabundo.

Normalmente é o trabalho
que leva a ser desse jeito
viver nessa correria
às vezes sem ter direito
ao lazer e ao descanso
importante pra o sujeito.

Quase sempre é coisa boa
levar uma vida assim
conhecer gente e lugares
fugir da rotina, enfim
mas às vezes perde a graça
e acaba sendo ruim.

Por levar vida cigana
sem pouso, sem seu cantinho
sem o refúgio tão bom
do aconchego de um ninho
isso atrapalha e faz falta
ao bem-estar é daninho.

É como vive uma jovem
que tem nome de Raquel
que na novela da vida
faz importante papel
e por isso agora é
personagem do cordel.

Alta, linda, inteligente
um poço de simpatia
moça de muito talento
da mais sublime energia
eis só algumas virtudes
que se vê nessa guria.

Desde cedo sempre ativa
garantindo o seu lugar
se impondo entre os demais
sem ferir nem magoar
apenas com seu jeitinho
tão próprio de conquistar.

Mas o seu jeito seguro
apesar de lhe ajudar
a crescer na vida em grupo
possui um particular
parece que lhe atrapalha
na hora de namorar.

Parece até que amedronta
os homens, que coisa estranha!
por isso, o seu primeiro
namoradinho, o Saldanha
arranjou numa excursão
quando ela foi à Espanha.

Não conquistou um toureiro
nem dançarino gitano
conquistou um brasileiro
do povo de Ariano
voltou com ele da Espanha
já cheia de sonho e plano.

Porém passado algum tempo
voltando à velha rotina
as unhas vieram à tona
de uma forma ferina
e os problemas chegaram
desafiando a menina.

Desafio de cuidar
desse seu lado afetivo
e de cavar seu futuro
de modo bem decisivo
administrando os conflitos
com seu amor tão cativo.

Cativo dos seus encantos
do seu jeito sedutor
cativante e ao mesmo tempo
um pouco ameaçador
para quem era inseguro
e um aprendiz do amor.

Ela segura de si
ele todo temeroso
ela solta e envolvente
ele fechado e raivoso
bloqueado e ciumento
fazendo papel de Bozo.

Brigava sem fundamento
como foi num certo dia
que ela chamou um amigo
do curso que ela fazia
para ir à sua casa
estudar Anatomia.

Dia e tarde no trabalho
de noite na faculdade
então ao chegar em casa
quis ficar mais à vontade
foi ao quarto, pôs um short
que lhe deu mais liberdade.

Serviu logo uma bebida
ligou o som bem baixinho
pois já passava das dez
e respeitava o vizinho
além disso, ia "istudá"
com aquele seu amiguinho.

Só os dois naquele apê
com apenas duas horas
pra fazer o que queriam
não podiam ter demora
ela olhou pra ele e disse:
Vamos começar agora!

E foi logo abrindo as pernas
dos óculos e o pôs no rosto
meteram a cara nos livros
ela esperta, ele disposto
e foram até meia-noite
estudando assim com gosto.

Acontece que Saldanha
lá chegou sem avisar
nem tocou a campainha
(tinha a chave para entrar)
e ao ver os dois na sala
mostrou ele não gostar.

Fico de cara amarrada
se sentindo um grande trouxa
olhando assim com censura
para o roliço das coxas
de Raquel naquele short
e ela de raiva, roxa.

Primeiro pela invasão
da sua privacidade
segundo, pela suspeita
de alguma leviandade
coisa que ela jamais
de fazer teve vontade.

Muito embora o tal amigo
mesmo ficando calado
ao vê-la naquele short
bem curtinho e apertado
não resistiu aos desejos
e ficou meio atacado.

Desejou deixar de lado
os livros e tudo mais
e agarrar-se com ela
- Ah, seria bom demais!
mas, mesmo assim desejando-a
não tentaria jamais.

Por causa do bom-mocismo
e também da amizade
que existia entre os dois
ele conteve a vontade
respirou fundo e voltou
à normal tranqüilidade.

Mesmo assim nasceu mais uma
desavença entre o casal
briga vai e briga vem
já era coisa normal
um nascido para o outro
mas nesta atração fatal.

Até quando ela chegou
à mais dura conclusão
- Eu estou numa roubada
já tomei a decisão
Um basta definitivo
eu vou dar à relação.

E como essa, outras vezes
ela fez bem decidida
mas ele não aceitava
Dizendo aos prantos: - Querida
não faça isso, você
é a razão da minha vida.

E ela voltava atrás
pois dele muito gostava
e só queria acabar
porque não mais agüentava
a pressão do namorado
que muito lhe incomodava.

E não se via casando
para cuidar só do lar
do marido e dos meninos
tinha espaço a conquistar
pois a sua independência
vinha em primeiro lugar.

Um dia desfez-se o laço
Saldanha compreendeu
com a perda da amada
por muito tempo sofreu
mas que era melhor pra ambos
finalmente ele entendeu.

E ela ganhou o mundo
com garra, disposição
onde chega faz sucesso
da clientela ao chefão
ainda só não deu jeito
nas coisas do coração.

Teve mais uns namorados
e até noiva ficou
porém nenhum foi em frente
hoje até já aceitou
não ter mais ansiedade
e não mais se estressou.

E nem se queixa do jeito
que escolheu pra viver
cada vez progride mais
e muito mais vai crescer
porque tem bons atributos
para dar e pra vender.

E quando bate a carência
de um xodó, de um chamego
ela liga pra Saldanha
e diz: - Vem pra cá, meu nego
não importa onde ela esteja
ele diz: - Já, já eu chego.

E assim a vida segue
cada qual encontre o jeito
de amar e ser feliz
rompendo até preconceito
porque a Felicidade
é o nosso maior direito.

FIM

(Palmares, 26-04-2007)

************************

domingo, abril 22, 2007

Um cordel pra Bob Marley

Ouvindo três passarinhos
Pousados à minha porta
Escrevo aqui o meu verso
Que me alegra e conforta
Mesmo que o pensamento
Viaje por linha torta.

Jah me deu o maior barato
E uma voz então me segue
Dizendo: - poeta vá
Em frente, você consegue
Falar sobre Bob Marley
O eterno rei do reggae.

Ouvindo o som dos seus hits
Numa atitude bem laica
Volto os olhos pro passado
Porém sem visão arcaica
E mergulho com prazer
Nesse mito da Jamaica.

Seu viver foi baseado
Na rastafari cultura
Até com a erva sagrada
Sua atitude era pura
Assim como seus cabelos
Também era uma postura.

Seu jeito de ver a vida
Sua arte e a militância
Era um todo indivisível
Era a sua substância
Por isso fez-se influência
Mesmo estando noutra instância.

De Kingston pra Jamaica
Da Jamaica para o mundo
O menino Bob foi
Um primeiro sem segundo
Até hoje não surgiu
Outro rasta tão fecundo.

A morte rondou-lhe à bala
Num serviço encomendado
Porém Jah lhe protegeu
Skapou do atentado
Pra falar mais forte ainda
Em favor do injustiçado.

Reggae, Rei, Recife, Raça
Os erres da resistência
Revolta, revolução
Reinado da renitência
Remando por rio acima
Re-ligando a consciência.

Rastafari, um pensamento
Um movimento ou um guia
Um jeito de ver a vida
Sendo assim, filosofia
Dando base às atitudes
De protesto e rebeldia.

O reggae como canal
De fazer ouvir a voz
De toda periferia
Que luta contra o algoz
Que se escancha no Poder
Sempre tão mal e feroz.

Dreadlocks não se podam
Nem se poda a liberdade
Bem maior que Jah doou
Para toda humanidade
Quando isso for praticado
Só reina a Felicidade.

Escravagista diáspora
Esquartejando uma raça
E levado ao Novo Mundo
O negro com garra e graça
Fez valer os seus valores
Mesmo com tanta ameaça.

Bob diz: - África una-te
Está passando da hora
A África que há na África
E as que há por mundo afora
Nos guetos e nas favelas
Onde há fome e a dor mora.


Que exista uma só África
Brasil, Jamaica, Benin
África no peito e na mente
Nele, em você e em mim
Nos sons da Tribo de Jah
Dreadlocks e pixaim.

Sons que foram se moldando
Conforme o novo ambiente
Combinações que se nutrem
De uma forma permanente
Reggae, samba, coco, jongo,
Xote, embolada, repente.

Baião, frevo, jazz e blues
Cacuriá, zabelê
Maracatu, caxambu
merengue, maculelê
Forró, salsa, carimbó
Calypso, cateretê.

Bob irmão de Malunguinho
Do Rei Zumbi de Palmares
De Fabião das Queimadas
E de tantos avatares
Exemplos de fortes negros
Anônimos há aos milhares.

Marley partiu, mas deixou
Para nós grande legado
O reggae cobriu o mundo
Entre nós é cultuado
Cava espaço, mostra força
Pereniza o seu reinado.


Desde Walter de Afogados
E o Valdir Afonjá
Bantus Reggae, Manga Rosa
Massativa, Jerivá
Favela Reggae, Brasáfrica
Libertária, Flor de Jah.


Reggai por Nós, Canto Reggae
O Sol tá Massa, N´Zambi
Malungos, Tambor Falante
Matoso, Tonami Dub
Malakai, Abole Gueto
É o reggae dentro do mangue.


Outro guerreiro é o Ívano
E a sua Rebeldia
Mais o Marcelo Santana
Vozes da periferia
Com eles Recife rega
O reggae com ousadia.


É pra Jah, Neblina Reggae,
Rama Seca, Kayamar
Mandala, Anama Roots
Fazendo o povo “reggar”
E muitas e muitas outras
Que não dá nem pra citar.


Peço perdão a quem não
Foi citado nesta lista
Não se trata de exclusão
Nem complô capitalista
Foram as limitações
Dos versos do cordelista.


A terra do frevo rende
Ao reggae sua homenagem
Salve a nossa negritude
Nossa atitude e coragem
Salve o reggae e Bob Marley
Salve o povo e a brodagem.

quarta-feira, abril 11, 2007

Parabéns Unicordel!

DOIS ANOS JÁ SE PASSARAM
FORTALECENDO O CORDEL.

Dia 11, mês abril

Em 2005 o ano

A tropa de cordelistas

De novato a veterano

Com idéia resoluta

Partiram juntos à luta

Com decisivo papel

A Unicordel criaram

DOIS ANOS JÁ SE PASSARAM
FORTALECENDO O CORDEL.



Mercado da Boa Vista

Onde tudo começou

Por email fez-se o convite

E a turma lá chegou

E demonstrando vontade

De despertar a cidade

Pra arte do menestrel

Desde então não mais pararam

DOIS ANOS JÁ SE PASSARAM
FORTALECENDO O CORDEL.



Com palestras, oficinas

Debates e recitais

Levando cordel ao povo

Ficando sempre em cartaz

A Unicordel vai bombando

Mais poetas se agregando

Engrandecendo o plantel

E na luta se engajaram

DOIS ANOS JÁ SE PASSARAM
FORTALECENDO O CORDEL.


Que isto é só o começo

Todos temos consciência

Foram dois anos de garra

Dois anos de resistência

Cavando apoio e espaço

E sem dar vez ao fracasso

Com o olhar firme no céu

E os novos sonhos não param

DOIS ANOS JÁ SE PASSARAM
FORTALECENDO O CORDEL.



Parabéns ao companheiro

Que da luta não arreda

E mesmo frente ao tropeço

Ajuda erguer-nos da queda

Age com perseverança

Pois pra quem tem esperança

Cada feito é um troféu

Que pra nós já reservaram

DOIS ANOS JÁ SE PASSARAM
FORTALECENDO O CORDEL.

Damos viva a quem apóia

Esta nossa militância

Cada qual faz a seu modo

Mas com a mesma importância

Nossa grande gratidão

Dos que conosco estão

Formando um público fiel

E sempre prestigiaram

DOIS ANOS JÁ SE PASSARAM
FORTALECENDO O CORDEL.

domingo, abril 08, 2007

A Buchada ou O Aniversário de Julita

Licença, quero contar
uma historinha engraçada
sobre a festa de Julita
onde teve uma buchada
que quase termina em crime
mas transformou-se em piada.


Pedro Caracu de Lima
era um velho solteirão
que vivia reclamando
por viver na solidão
até que achou com quem
compartilhar o colchão.


Já passava dos sessenta
quando casou com Julita
morena, muito vistosa
melhor dizendo, bonita
daquela que quando passa
a macharia se agita.


Tinha ela um derrier
por demais avantajado
dava até a impressão
que este seu predicado
era por dormir na rede
que tinha o fundo furado.


E devido à diferença
de idade que existia
sempre, sempre na cidade
alguém lhe advertia
sobre o perigo de chifres
ao que ele respondia:


- "Cavalo véi, capim novo"
é um ditado perfeito
comer filé com os amigos
sei que tiro mais proveito
que comer "péia" sozinho
e à carne não ter direito.


Quando ela fez trinta anos
ele disse à camarada:
- Vamos festejar esta data
de forma bem animada
a gente chama os amigos
pra comerem uma buchada.


Na data pactuada
os dois estavam postados
à entrada do casebre
recebendo os convidados
fazendo as honras da casa
pra todos recém-chegados.


De ver tanto homem assim junto
Julita não escondia
o grande contentamento
todo mundo percebia
diante das piscadelas
aos homens que recebia.


Parecia um cacoete
um tique-tique nervoso
impressão que foi desfeita
quando chegou bem fogoso
Urutabão "Bate-o-Bombo"
um mancebo donairoso.


Com 23 anos de idade
dois metros de envergadura
nas rodas do "Carretel"
era uma constante figura
mesmo sendo bebe-quieto
fazia muita loucura.


O piscar dos olhos dela
dos homens tirava a calma
Pedro a tudo assistia
sem preconceito, sem trauma
aos requebros tão dengosos
de peito, traseiro e alma.


A buchada era bem farta
e por sinal muito boa
preparada por Nidinha
uma excelente pessoa
e também alcoviteira
das "fugidas"da patroa.


Enquanto o povo comia
na maior "delicadeza"
Urubatão e Julita
tocavam os pés sob a mesa
e telepaticamente
acertavam a sobremesa.


Quando findou o almoço
e o povo se retirou
a ausência de Julita
foi que Pedro então notou
lembrou que Urubatão
pela porta não passou.


Então lhe veio o estalo
do que ia acontecer
correu bufando pro quarto
deu um grito pra valer:
- Se os dois brincar, agora
"tejam" certos, vão morrer!


Julita correu aos gritos
fazendo grande alarido
Urubatão levantou-se
já de todo prevenido
apontando o seu revólver
para o marido traído.


- Vou morrer de que, seu corno?
perguntou ao camarada
Pedro disse calmamente
com a voz resignada:
- de indigestão... Buchada
é comida muito pesada.


Quando Pedro disse assim
Urubatão se acalmou
e guardando a sua arma
altivo se retirou
Julita pediu perdão
e Pedro lhe desculpou.


Mas aconteceu porém
que tinha alguém escondido
assistindo a tudo isso
que havia acontecido
e lá no bar da sinuca
contou todo o ocorrido.


Já fazia uma semana
que o fato tinha se dado
Pedro soube que Mané
Salu tinha boatado
- "Vou tomar satisfações
com aquele cabra-safado".


- Perguntou: - Salustiano,
quero saber... É verdade
que você anda espalhando
por toda nossa cidade
que sou corno convencido
ou isto é falsidade?


- Mané estava calado
e calado ali ficou
Pedro perguntou de novo
e Salu não respostou
Pedro disse: - Está com medo?
Repita, então se falou!


Com grande calma, Salu
pôs o cigarro no chão
levou a mão à cintura
puxou sua "conceição"
uma doze polegadas
e a enterrou no balcão.


Cuspiu de lado e falou
como fosse aconselhar
Pedro, você é um corno
isso não pode negar
bastar deixar de ser corno
que eu deixo de falar...


E Pedro bem cabisbaixo
saiu dali descontente
foi pros braços de Julita
chorou copiosamente
lembrando toda vergonha
que passou recentemente.


E Julita consolava
o desditoso marido
dizendo: - Não chores não
ao povo não dê ouvido
eu te amo, tu me amas
é o que importa, querido!


Eis aí caros leitores
uma história bem real
que se deu em Itabaiana
que é cidade natal
do cronista Erasmo Souto
memorialista sem igual.


Através de seus relatos
que achei muito bacana
desenvolvi esta história
que mesmo sendo sacana
ela atesta que se deu
na pacata Itabaiana.


Honório transpôs pro verso
O que Erasmo contou
Naquele livro primeiro
Onde ele relatou
Relíquia da mocidade
Imagens duma cidade
Onde ele se criou.


FIM
TIMBAÚBA-PE, JUL/90.

domingo, abril 01, 2007

A gordinha que se deu bem por causa da Internet


(Versos: José Honório)

Essa tal de Internet
Não há quem possa negar
Trouxe muitos benefícios
Pra quem dela precisar
Também trouxe coisa ruim
Por isso é bom se cuidar.

Nela há como aprender
Dar cabo da própria vida
Fazer bomba, terrorismo
A lista é muito comprida
Dos malefícios que ela,
A Internet, é servida.

Golpes, roubos à distância
Surgem vários todo dia
Também nela se encontra
Sítios de pedofilia
Apologia ao racismo
E também à anarquia.

Tem mulher sendo atraída
Para armadilha fatal
Querendo encontrar um príncipe
Vai pra mão de marginal
Acha a morte quando sai
Do virtual pro real.

Das coisas boas da net
A lista é bem mais extensa
Cada vez aumenta mais
Numa rapidez imensa
A intenção de quem usa
É que faz a diferença.

Informações que se cruzam
Ajudando a salvar vidas
Idéias que perambulam
Nas virtuais avenidas
Levando planeta afora
Atitudes decididas.

Dos quatros cantos da Terra
Faz-se possível o contato
Pra conversar, pra comprar
Às vezes até mais barato
E recebendo na porta
Quase que de imediato.

Amigos que se descobrem
Depois de tempo afastados
Amigos que se conhecem
Sem terem se avistados
Amizades que se nutrem
Pelos toques dos teclados.

Paixões nascendo e formando
Os mais diversos casais
Que descobrem seus parceiros
Por meios não triviais
Nas salas de bate-papo
E namoros virtuais.

Como aconteceu com P.
Que vivia deprimida
Se sentindo mal-amada
Sem achar graça na vida
Só encontrando prazer
Quando a coisa era comida.

Por isso ficou obesa
Se achando uma baleia
Porém não fechava a boca
No café, almoço ou ceia
E nem queria saber
Se lhe achavam bela ou feia.

Era mesmo um mulherão:
Quase dois metros de altura
Comendo como comia
Se ampliou na largura
Quase cem quilos de tara
Diluídos na gordura.

Se tinha o peso em excesso
Tinha também o tesão
Mas não se via capaz
De encontrar um gatão
Que por aquela gordinha
Sentisse alguma atração.

Porém um dia uma amiga
Na net lhe apresentou
Um amigo virtual
Com quem um papo travou
E nesse papo primeiro
Um certo clima pintou.

Depois de muita paquera
De teclado pra teclado
Resolveram se encontrar
Porém no dia marcado
Ele não compareceu
Como haviam combinado.

Ela sentiu-se na "merda"
Mais uma vez rejeitada
Pondo culpa na gordura
Se achando condenada
A viver sem ter prazer
E somente sendo usada.

No entanto concedeu
Nova chance ao camarada
E nessa segunda vez
Acabou recompensada
Com momentos tão incríveis
Que até hoje está passada.

Foi muito grande a surpresa
No seu encontro primeiro
Se foi só esse, quem sabe?
Não se conhece o roteiro
Mas mesmo se foi o único
Seu valor foi verdadeiro.

Quando que ela pensava
Em fazer isso algum dia?
Se encontrar com alguém
Que ela não conhecia
No entanto dentro dela
Um forte desejo ardia.

Chutando o pau da barraca
Querendo dar uma guinada
Pensou: - Nem quero saber
Estava muito empolgada
Imaginando a sessão
De amor com o camarada.

Além do mais, quem diria?
- Nunca tive um homem assim
Bonito, forte, imponente
É muito mesmo pra mim
Um deus grego desse, vixe!
É fogo em meu estopim.

Ela toda ansiedade
Ele calmo e competente
Disse pra ela: - Relaxe
Calminha, não se apoquente
Deixe comigo que eu cuido
De nós dois daqui pra frente.

Olhou-a de baixo à cima
Quase que vira o pescoço
De tão alta que era ela
Nela não viu um só osso
E aqueles quase cem quilos
Não afugentou o moço.

Estavam em devaneios
Na intenção de curtir
Aquele momento único
E não podiam partir
Direto para o bem-bom
Tinha que deixar fluir.

Porém foi lhe tratando
Como um nobre cavalheiro
Depois virou um moleque
Daquele bem presepeiro
Chegando a brincar com ela
De guerra de travesseiro.

Foi assim crescendo o clima
De ansiedade e sedução
Seus corpos se desejando
Transpirando de tesão
Corações acelerados
Também a respiração.

Ajustou a luz do quarto
Deixando um tom de lilás
E já desnudos os corpos
Seus eflúvios sensuais
Incensaram o ambiente
Fazendo-os quererem mais.

Explorou cada milímetro
Daquela mulher tão vasta
Confirmando que a danada
Não tinha nada de casta
E no esporte do sexo
Parecia uma ginasta.

E das teclas para as tetas
Seus dedos se deslocaram
A língua também foi cúmplice
Suas bocas se encontraram
Em beijos alucinantes
Mais de uma hora passaram.

E tome mãos atrevidas
Dedos afoitos também
Passeando sem pudor
Indo até no mais além
Do possível e esperado
Porém lhes fazendo bem.

Depois das preliminares
(Durou uma eternidade!)
Partiram para o serviço
Para a “hora da verdade”
E aí o cancão piou
Foi grande a felicidade.

Dando início aos finalmentes
Ela teve outra surpresa
Ao descobrir que o parceiro
Era mesmo um pé-de-mesa
No tamanho e na grossura
Foi-lhe boa a natureza.

De início se assustou
Nunca viu calibre igual
- Depois dessa estou lascada
Que coisa descomunal!
Será que tenho abertura
Para agüentar esse pau?

No entanto estava ali
Para o que desse e viesse
Não ia dar “ré pra trás”
Pudesse dar no que desse
Pra ter algo como aquilo
Tem até quem faça prece.

Sendo assim, seguiu em frente
Deixou por conta do bode
Pensando: outras conseguem
Por que essa aqui não pode?
Se benzeu e decidida
Se entregou ao pagode.

Como mulher consciente
Informada e prevenida
Perguntou: - e a camisinha?
Ele disse: - Minha querida
Eis aqui, é com você
Prontinha pra ser vestida.

Quem foi que disse que ela
Sabia como fazer?
Ficou toda atrapalhada
Sem querer reconhecer
Que era a primeira vez
Não parava de tremer.

Primeira vez que transava
Naquela situação
Antes só com seu marido
E aí precisava não
De usar preservativo
E nem daquela emoção.

E foi ficando sem graça
Por se ver pagando um mico
Mas ele tomou as rédeas
- Pode deixar que eu aplico
Você só olha e aprende
Se precisar eu te explico.

Depois da bicha vestida
Nada de maior espera
Partiram para o serviço
Ele mostrou ser um fera
Ela tal qual Afrodite
De fazer inveja à Hera.

Os seus corpos se juntaram
Sem querer mais separar
Grunhidos, gritos, sussurros
Ali se pôde escutar
Subiu a temperatura
Viu-se a hora incendiar.

Pegar fogo nos lençóis
As paredes irem ao chão
Tamanho o vuco-vuco
Daqueles dois em ação
Amantes em plena entrega
Aos caprichos do tesão.

Foram horas de prazer
Aventura inesquecível
Principalmente pra ela
Que não achava possível
Novamente estar vivendo
Momento assim tão incrível.

Gastou tantas calorias
Que ia ficar insone
Mas aí não teve dúvida
Pegou logo o interfone
E pra recobrar as forças
Mandou vir um canelone.

Não ia comer sozinha
O canelone fornido
Mas ele se recusou
Dizendo já estar nutrido
Pois o que ele queria
Ele já tinha comido.

Depois da manhã de amor
Cada qual foi pro seu lado
O destino se encarregue
De traçar o resultado
Pois o "hoje" foi vivido
Do modo mais desejado.

Talvez seja um início
Talvez não mais se repita
Talvez lembrança, ou talvez
Esporádica visita
De qualquer forma que for
Nada disso a deixa aflita.

Já se sente satisfeita
Pois fez o que há muito quis
Sentiu-se de novo fêmea
Viveu momentos febris
Se acha ainda baleia
Porém baleia feliz.

Lembrando que essa história
Na net teve o começo
Vê-se que um final feliz
Aconteceu sem tropeço
E que nem sempre se paga
Pelo prazer alto preço!

(Recife-01-04-2007)

domingo, março 25, 2007

Glosa para Chico Pedrosa!


Nosso mestre Chico Pedrosa ficará de molho nos próximos dias, para recuperar-se de uma cirurgia. Num gesto de solidariedade e companheirismos, poetas se juntam para publicar um cordel cuja renda será destinada à ajudá-lo a atravessar esse momento de recesso. A partir do mote fornecido por nosso companheiro Felipe Júnior, fiz a seguinte glosa em louvor do nosso incomparável CHICO PEDROSA:

VELHO CHICO DESÁGUA POESIA
NA RIBEIRA DO NOSSO CORAÇÃO.

Ouvir Chico Pedrosa declamando
é se dar um presente sem igual

porque Chico é somente magistral
é o Divino Poder se revelando

é o sertão nos seus versos se mostrando
pra quem é ou não é lá do sertão
é a fonte sem fim de inspiração
que nos faz navegar na nostalgia

VELHO CHICO DESÁGUA POESIA
NA RIBEIRA DO NOSSO CORAÇÃO.

segunda-feira, março 05, 2007

CONVIVER COM MULHER DESCONFIADA
É ANDAR SOB A SOMBRA DO CIÚME


(Glosas para o mote dado a mim e ao poeta João Campos por Marcone Melo, durante a última Quinta do Cordel, acontecida em 01-03-07):

Não tem paz o sujeito que se enlaça
com mulher insegura e ciumenta
ela pega no pé e sempre inventa
uma briga, uma cima, uma pirraça
se ele olha para quem por perto passa
e repara, discreto, o seu volume
ela diz - vai atrás e se arrume
com essa quenga escrota, essa safada
CONVIVER COM MULHER DESCONFIADA
É ANDAR SOB A SOMBRA DO CIÚME.

Se quiser não ter mais nenhum sossego
com mulher ciumenta case um dia
e não deixe de lado a boemia
(não precisa por lá ter um chamego)
mesmo tendo por ti um grande apego
ela implica só mesmo por costume
cheira a roupa a procura de perfume
e por nada ela sempre faz zoada
CONVIVER COM MULHER DESCONFIADA
É ANDAR SOB A SOMBRA DO CIÚME.