sábado, maio 26, 2007

A BRIGA DO GALO COM O PEIXE (*)
PRA TER DIREITO À CONCÓRDIA
Autor: José Honório da Silva

Que nosso Galo é de briga

O seu hino já falou
É por isso que Enéas
Mais uma vez provocou
E o Peixe que não é mole
Não bateu fofo, peitou.

O espaço da folia
Está sendo disputado
Pelos patrocinadores
Que investiram um bocado
No Carnaval como um todo
E neste bloco afamado.

A disputa entre as cervejas
Há muito vem acirrada
Se Nova ou desce redondo
Pouco importa, camarada!
Porque o povo bem sabe:
A boa mesmo é gelada.

Quer no rádio ou na tv
Nos horários de audiência
A propaganda é constante
Detonando a concorrência
Cada qual tenta mostrar
Que detém a preferência.

Mas briguem por lá que eu
Partido não vou tomar
Tendo “ceva” eu tomo todas
Isto jamais vou negar
Mas não tendo basta frevo
Para eu desembestar.

Além disso em briga alheia
Não sou de meter o dedo
Eu só sei que Deus querendo
Eu estarei logo cedo
Fazendo o passo no Galo
Sem ter um tico de medo.

No Galo se vê de tudo
Em termos de carnaval
Tem o frevo que domina
Sendo o prato principal
Nesse banquete de ritmos
Que levantam nosso astral.

Tem abre-alas, baianas
Toureiros e mandarins
Passistas, porta-estandartes
Tocadores de clarins
Tem colombinas faceiras
Pierrôs e arlequins.

Palhaços, xeiques, piratas
Odaliscas, enfermeiras
Bailarinas, normalistas
Diabos, padres e freiras
Onças, anjos, gatas, noivas
Tiazinhas, feiticeiras.

Tem folião casual
Que não vai fantasiado
Usa bermuda e camisa
Um sapato já sambado
Se embala com o frevo
E faz o passo rasgado.

Gente que vai pelo frevo
Pelo embalo da folia
Gente a fim de se dar bem
No xumbrego da orgia
Seja qual for o motivo
No Galo se extasia.

Aos que lhes falta coragem
De juntar-se à multidão
Por medo, por preconceito
Por qualquer limitação
Há camarotes pra quem
Puder gastar seu carvão.

Mas o bom é ir pro meio
Do povo que se atropela
Quando do trio se ouve
“Você diz que ela é bela...”
A pernambucanidade
É aí que se revela.

Tem casado que dá drible
Na mulher e vai sozinho
Diz que vai fazer um bico
Combina com seu vizinho
Passa o dia na muvuca
Chega em casa bem quietinho.

Tem também mulher que vai
Escondida do marido
Veste um short, calça o tênis
E diz pra ele: - Querido
Eu vou lá na costureira
Para provar um vestido.

Tem gente cheirando lança
Pra ficar numa maior
Cheira loló, cheira cola
Eu não sei o que é pior
Prefiro cheirar cangotes
Molhadinhos de suor.

Lá no Galo todos brincam
Numa só cumplicidade
Criança, jovem, coroa
Folião de toda idade
Acompanhado ou sozinho
Quer seja ou não da cidade.

Muitos dos que lá não vão
Gostariam de poder
Mas o que pode e não vai
Eu não consigo entender
Só lamento que não saiba
O que está a perder.

Infelizmente também
Tem os pais desnaturados
Que levam os filhos e não
Têm os devidos cuidados
Não os protegem do sol
E nem dão água aos coitados.

No Galo também tem gente
Que não vai pra brincadeira
São lanceiros bem atentos
Aos que estão de bobeira
E depois que dão o lance
Lá se foi sua carteira.

Tem quem vai com o propósito
De provocar confusão
Passa a mão na bunda alheia
Dá pisada e beliscão
Cantando mulher dos outros
Dando soco e empurrão.

Fazem para aparecer
Para mostrar valentia
Pensando ganhar cartaz
Perante alguma guria
Porém nem mesmo conseguem
Estragar nossa alegria.

Mulheres que se aproveitam
E dão corda aos donjuans
Comem, bebem às suas custas
Olhando pra suas cãs
E na “hora da verdade”
Desaparecem nas vans.

Tem cara que força a barra
E às minas dão bebidas
No intuito de deixá-las
Fogosas, desinibidas
E assim tê-las nas malhas
De suas mãos pervertidas.

Tem travesti exibindo
A forma siliconada
Sobre dois palmos de salto
Levando vaia e dedada
Dos gaiatos de plantão
Que não deixam passar nada.

Tem sapatões que se vestem
De soldado ou de palhaço
Com cachaça na cachola
Entram logo no amasso
E sem ligar para o povo
Tome beijo e tome abraço.

Tem o que vende comida
Daquelas comeu-morreu
Ganhar o mais que puder
É este o desejo seu
Mesmo que fique doente
Quem seu quitute comeu.

No começo é maravilha
Mas depois de certa hora
A cerveja só vem quente
O calorão estupora
As brigas se intensificam
O melhor é ir embora.

Digo que as almas sebosas
Jamais serão empecilho
Para que o Galo sempre
Mantenha firme este brilho
E um pai possa brincar
Trazendo no braço o filho.

No bairro de São José
O Galo tem endereço
Muitos lá se equilibram
Outros viram pelo avesso
Se para uns basta o Galo
Pra muita gente é o começo.

Nos versos quase finais
Eu grito: “Ei Pessoal!...”
O Galo da Madrugada
É mesmo “felomenal
Mas o Carnaval da gente
Faz-se multicultural.

A nossa festa maior
É cultura que lateja
A alma pernambucana
Pelas ruas se despeja
Levando alegria ao povo
Onde quer que ele esteja.

FIM Fevereiro/2005

(*) - O "peixe" do título é o secretário de
Cultura do Recife, João Roberto Peixe, com
quem a direção do Galo da Madrugada
travou um embate por conta das cervejarias
patrocinadoras.


Homenagem prestada ao poeta pelo Colégio Boa Viagem (Recife-PE), por ocasião do IX Concurso de Literatura de Cordel, realizado durante a XI Semana da Cultura, dentro das comemorações dos 40 anos de criação deste conceituado estabelecimento de ensino.


sábado, maio 05, 2007

Regina Casé: Do Planeta Legal para a Periferia



Ela esteve no Recife esta semana (02/05-07), participando do seminário Estética da Periferia: diálogos urgentes, coordenado pela pesquisa Heloísa Buarque de Holanda. Essa foto aí é de janeiro/96, quando ela esteve em Timbaúba me entrevistando para o programa BRASIL LEGAL, que foi ao ar em Julho/96.

quinta-feira, abril 26, 2007

Raquel e Saldanha ou Essa mulher é demais!!!


(versos de José Honório)

O mundo dá muita volta
não pára nenhum segundo
e muita gente é assim
vive a rodar pelo mundo
ora aqui, ora acolá
porém sem ser vagabundo.

Normalmente é o trabalho
que leva a ser desse jeito
viver nessa correria
às vezes sem ter direito
ao lazer e ao descanso
importante pra o sujeito.

Quase sempre é coisa boa
levar uma vida assim
conhecer gente e lugares
fugir da rotina, enfim
mas às vezes perde a graça
e acaba sendo ruim.

Por levar vida cigana
sem pouso, sem seu cantinho
sem o refúgio tão bom
do aconchego de um ninho
isso atrapalha e faz falta
ao bem-estar é daninho.

É como vive uma jovem
que tem nome de Raquel
que na novela da vida
faz importante papel
e por isso agora é
personagem do cordel.

Alta, linda, inteligente
um poço de simpatia
moça de muito talento
da mais sublime energia
eis só algumas virtudes
que se vê nessa guria.

Desde cedo sempre ativa
garantindo o seu lugar
se impondo entre os demais
sem ferir nem magoar
apenas com seu jeitinho
tão próprio de conquistar.

Mas o seu jeito seguro
apesar de lhe ajudar
a crescer na vida em grupo
possui um particular
parece que lhe atrapalha
na hora de namorar.

Parece até que amedronta
os homens, que coisa estranha!
por isso, o seu primeiro
namoradinho, o Saldanha
arranjou numa excursão
quando ela foi à Espanha.

Não conquistou um toureiro
nem dançarino gitano
conquistou um brasileiro
do povo de Ariano
voltou com ele da Espanha
já cheia de sonho e plano.

Porém passado algum tempo
voltando à velha rotina
as unhas vieram à tona
de uma forma ferina
e os problemas chegaram
desafiando a menina.

Desafio de cuidar
desse seu lado afetivo
e de cavar seu futuro
de modo bem decisivo
administrando os conflitos
com seu amor tão cativo.

Cativo dos seus encantos
do seu jeito sedutor
cativante e ao mesmo tempo
um pouco ameaçador
para quem era inseguro
e um aprendiz do amor.

Ela segura de si
ele todo temeroso
ela solta e envolvente
ele fechado e raivoso
bloqueado e ciumento
fazendo papel de Bozo.

Brigava sem fundamento
como foi num certo dia
que ela chamou um amigo
do curso que ela fazia
para ir à sua casa
estudar Anatomia.

Dia e tarde no trabalho
de noite na faculdade
então ao chegar em casa
quis ficar mais à vontade
foi ao quarto, pôs um short
que lhe deu mais liberdade.

Serviu logo uma bebida
ligou o som bem baixinho
pois já passava das dez
e respeitava o vizinho
além disso, ia "istudá"
com aquele seu amiguinho.

Só os dois naquele apê
com apenas duas horas
pra fazer o que queriam
não podiam ter demora
ela olhou pra ele e disse:
Vamos começar agora!

E foi logo abrindo as pernas
dos óculos e o pôs no rosto
meteram a cara nos livros
ela esperta, ele disposto
e foram até meia-noite
estudando assim com gosto.

Acontece que Saldanha
lá chegou sem avisar
nem tocou a campainha
(tinha a chave para entrar)
e ao ver os dois na sala
mostrou ele não gostar.

Fico de cara amarrada
se sentindo um grande trouxa
olhando assim com censura
para o roliço das coxas
de Raquel naquele short
e ela de raiva, roxa.

Primeiro pela invasão
da sua privacidade
segundo, pela suspeita
de alguma leviandade
coisa que ela jamais
de fazer teve vontade.

Muito embora o tal amigo
mesmo ficando calado
ao vê-la naquele short
bem curtinho e apertado
não resistiu aos desejos
e ficou meio atacado.

Desejou deixar de lado
os livros e tudo mais
e agarrar-se com ela
- Ah, seria bom demais!
mas, mesmo assim desejando-a
não tentaria jamais.

Por causa do bom-mocismo
e também da amizade
que existia entre os dois
ele conteve a vontade
respirou fundo e voltou
à normal tranqüilidade.

Mesmo assim nasceu mais uma
desavença entre o casal
briga vai e briga vem
já era coisa normal
um nascido para o outro
mas nesta atração fatal.

Até quando ela chegou
à mais dura conclusão
- Eu estou numa roubada
já tomei a decisão
Um basta definitivo
eu vou dar à relação.

E como essa, outras vezes
ela fez bem decidida
mas ele não aceitava
Dizendo aos prantos: - Querida
não faça isso, você
é a razão da minha vida.

E ela voltava atrás
pois dele muito gostava
e só queria acabar
porque não mais agüentava
a pressão do namorado
que muito lhe incomodava.

E não se via casando
para cuidar só do lar
do marido e dos meninos
tinha espaço a conquistar
pois a sua independência
vinha em primeiro lugar.

Um dia desfez-se o laço
Saldanha compreendeu
com a perda da amada
por muito tempo sofreu
mas que era melhor pra ambos
finalmente ele entendeu.

E ela ganhou o mundo
com garra, disposição
onde chega faz sucesso
da clientela ao chefão
ainda só não deu jeito
nas coisas do coração.

Teve mais uns namorados
e até noiva ficou
porém nenhum foi em frente
hoje até já aceitou
não ter mais ansiedade
e não mais se estressou.

E nem se queixa do jeito
que escolheu pra viver
cada vez progride mais
e muito mais vai crescer
porque tem bons atributos
para dar e pra vender.

E quando bate a carência
de um xodó, de um chamego
ela liga pra Saldanha
e diz: - Vem pra cá, meu nego
não importa onde ela esteja
ele diz: - Já, já eu chego.

E assim a vida segue
cada qual encontre o jeito
de amar e ser feliz
rompendo até preconceito
porque a Felicidade
é o nosso maior direito.

FIM

(Palmares, 26-04-2007)

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domingo, abril 22, 2007

Um cordel pra Bob Marley

Ouvindo três passarinhos
Pousados à minha porta
Escrevo aqui o meu verso
Que me alegra e conforta
Mesmo que o pensamento
Viaje por linha torta.

Jah me deu o maior barato
E uma voz então me segue
Dizendo: - poeta vá
Em frente, você consegue
Falar sobre Bob Marley
O eterno rei do reggae.

Ouvindo o som dos seus hits
Numa atitude bem laica
Volto os olhos pro passado
Porém sem visão arcaica
E mergulho com prazer
Nesse mito da Jamaica.

Seu viver foi baseado
Na rastafari cultura
Até com a erva sagrada
Sua atitude era pura
Assim como seus cabelos
Também era uma postura.

Seu jeito de ver a vida
Sua arte e a militância
Era um todo indivisível
Era a sua substância
Por isso fez-se influência
Mesmo estando noutra instância.

De Kingston pra Jamaica
Da Jamaica para o mundo
O menino Bob foi
Um primeiro sem segundo
Até hoje não surgiu
Outro rasta tão fecundo.

A morte rondou-lhe à bala
Num serviço encomendado
Porém Jah lhe protegeu
Skapou do atentado
Pra falar mais forte ainda
Em favor do injustiçado.

Reggae, Rei, Recife, Raça
Os erres da resistência
Revolta, revolução
Reinado da renitência
Remando por rio acima
Re-ligando a consciência.

Rastafari, um pensamento
Um movimento ou um guia
Um jeito de ver a vida
Sendo assim, filosofia
Dando base às atitudes
De protesto e rebeldia.

O reggae como canal
De fazer ouvir a voz
De toda periferia
Que luta contra o algoz
Que se escancha no Poder
Sempre tão mal e feroz.

Dreadlocks não se podam
Nem se poda a liberdade
Bem maior que Jah doou
Para toda humanidade
Quando isso for praticado
Só reina a Felicidade.

Escravagista diáspora
Esquartejando uma raça
E levado ao Novo Mundo
O negro com garra e graça
Fez valer os seus valores
Mesmo com tanta ameaça.

Bob diz: - África una-te
Está passando da hora
A África que há na África
E as que há por mundo afora
Nos guetos e nas favelas
Onde há fome e a dor mora.


Que exista uma só África
Brasil, Jamaica, Benin
África no peito e na mente
Nele, em você e em mim
Nos sons da Tribo de Jah
Dreadlocks e pixaim.

Sons que foram se moldando
Conforme o novo ambiente
Combinações que se nutrem
De uma forma permanente
Reggae, samba, coco, jongo,
Xote, embolada, repente.

Baião, frevo, jazz e blues
Cacuriá, zabelê
Maracatu, caxambu
merengue, maculelê
Forró, salsa, carimbó
Calypso, cateretê.

Bob irmão de Malunguinho
Do Rei Zumbi de Palmares
De Fabião das Queimadas
E de tantos avatares
Exemplos de fortes negros
Anônimos há aos milhares.

Marley partiu, mas deixou
Para nós grande legado
O reggae cobriu o mundo
Entre nós é cultuado
Cava espaço, mostra força
Pereniza o seu reinado.


Desde Walter de Afogados
E o Valdir Afonjá
Bantus Reggae, Manga Rosa
Massativa, Jerivá
Favela Reggae, Brasáfrica
Libertária, Flor de Jah.


Reggai por Nós, Canto Reggae
O Sol tá Massa, N´Zambi
Malungos, Tambor Falante
Matoso, Tonami Dub
Malakai, Abole Gueto
É o reggae dentro do mangue.


Outro guerreiro é o Ívano
E a sua Rebeldia
Mais o Marcelo Santana
Vozes da periferia
Com eles Recife rega
O reggae com ousadia.


É pra Jah, Neblina Reggae,
Rama Seca, Kayamar
Mandala, Anama Roots
Fazendo o povo “reggar”
E muitas e muitas outras
Que não dá nem pra citar.


Peço perdão a quem não
Foi citado nesta lista
Não se trata de exclusão
Nem complô capitalista
Foram as limitações
Dos versos do cordelista.


A terra do frevo rende
Ao reggae sua homenagem
Salve a nossa negritude
Nossa atitude e coragem
Salve o reggae e Bob Marley
Salve o povo e a brodagem.

quarta-feira, abril 11, 2007

Parabéns Unicordel!

DOIS ANOS JÁ SE PASSARAM
FORTALECENDO O CORDEL.

Dia 11, mês abril

Em 2005 o ano

A tropa de cordelistas

De novato a veterano

Com idéia resoluta

Partiram juntos à luta

Com decisivo papel

A Unicordel criaram

DOIS ANOS JÁ SE PASSARAM
FORTALECENDO O CORDEL.



Mercado da Boa Vista

Onde tudo começou

Por email fez-se o convite

E a turma lá chegou

E demonstrando vontade

De despertar a cidade

Pra arte do menestrel

Desde então não mais pararam

DOIS ANOS JÁ SE PASSARAM
FORTALECENDO O CORDEL.



Com palestras, oficinas

Debates e recitais

Levando cordel ao povo

Ficando sempre em cartaz

A Unicordel vai bombando

Mais poetas se agregando

Engrandecendo o plantel

E na luta se engajaram

DOIS ANOS JÁ SE PASSARAM
FORTALECENDO O CORDEL.


Que isto é só o começo

Todos temos consciência

Foram dois anos de garra

Dois anos de resistência

Cavando apoio e espaço

E sem dar vez ao fracasso

Com o olhar firme no céu

E os novos sonhos não param

DOIS ANOS JÁ SE PASSARAM
FORTALECENDO O CORDEL.



Parabéns ao companheiro

Que da luta não arreda

E mesmo frente ao tropeço

Ajuda erguer-nos da queda

Age com perseverança

Pois pra quem tem esperança

Cada feito é um troféu

Que pra nós já reservaram

DOIS ANOS JÁ SE PASSARAM
FORTALECENDO O CORDEL.

Damos viva a quem apóia

Esta nossa militância

Cada qual faz a seu modo

Mas com a mesma importância

Nossa grande gratidão

Dos que conosco estão

Formando um público fiel

E sempre prestigiaram

DOIS ANOS JÁ SE PASSARAM
FORTALECENDO O CORDEL.

domingo, abril 08, 2007

A Buchada ou O Aniversário de Julita

Licença, quero contar
uma historinha engraçada
sobre a festa de Julita
onde teve uma buchada
que quase termina em crime
mas transformou-se em piada.


Pedro Caracu de Lima
era um velho solteirão
que vivia reclamando
por viver na solidão
até que achou com quem
compartilhar o colchão.


Já passava dos sessenta
quando casou com Julita
morena, muito vistosa
melhor dizendo, bonita
daquela que quando passa
a macharia se agita.


Tinha ela um derrier
por demais avantajado
dava até a impressão
que este seu predicado
era por dormir na rede
que tinha o fundo furado.


E devido à diferença
de idade que existia
sempre, sempre na cidade
alguém lhe advertia
sobre o perigo de chifres
ao que ele respondia:


- "Cavalo véi, capim novo"
é um ditado perfeito
comer filé com os amigos
sei que tiro mais proveito
que comer "péia" sozinho
e à carne não ter direito.


Quando ela fez trinta anos
ele disse à camarada:
- Vamos festejar esta data
de forma bem animada
a gente chama os amigos
pra comerem uma buchada.


Na data pactuada
os dois estavam postados
à entrada do casebre
recebendo os convidados
fazendo as honras da casa
pra todos recém-chegados.


De ver tanto homem assim junto
Julita não escondia
o grande contentamento
todo mundo percebia
diante das piscadelas
aos homens que recebia.


Parecia um cacoete
um tique-tique nervoso
impressão que foi desfeita
quando chegou bem fogoso
Urutabão "Bate-o-Bombo"
um mancebo donairoso.


Com 23 anos de idade
dois metros de envergadura
nas rodas do "Carretel"
era uma constante figura
mesmo sendo bebe-quieto
fazia muita loucura.


O piscar dos olhos dela
dos homens tirava a calma
Pedro a tudo assistia
sem preconceito, sem trauma
aos requebros tão dengosos
de peito, traseiro e alma.


A buchada era bem farta
e por sinal muito boa
preparada por Nidinha
uma excelente pessoa
e também alcoviteira
das "fugidas"da patroa.


Enquanto o povo comia
na maior "delicadeza"
Urubatão e Julita
tocavam os pés sob a mesa
e telepaticamente
acertavam a sobremesa.


Quando findou o almoço
e o povo se retirou
a ausência de Julita
foi que Pedro então notou
lembrou que Urubatão
pela porta não passou.


Então lhe veio o estalo
do que ia acontecer
correu bufando pro quarto
deu um grito pra valer:
- Se os dois brincar, agora
"tejam" certos, vão morrer!


Julita correu aos gritos
fazendo grande alarido
Urubatão levantou-se
já de todo prevenido
apontando o seu revólver
para o marido traído.


- Vou morrer de que, seu corno?
perguntou ao camarada
Pedro disse calmamente
com a voz resignada:
- de indigestão... Buchada
é comida muito pesada.


Quando Pedro disse assim
Urubatão se acalmou
e guardando a sua arma
altivo se retirou
Julita pediu perdão
e Pedro lhe desculpou.


Mas aconteceu porém
que tinha alguém escondido
assistindo a tudo isso
que havia acontecido
e lá no bar da sinuca
contou todo o ocorrido.


Já fazia uma semana
que o fato tinha se dado
Pedro soube que Mané
Salu tinha boatado
- "Vou tomar satisfações
com aquele cabra-safado".


- Perguntou: - Salustiano,
quero saber... É verdade
que você anda espalhando
por toda nossa cidade
que sou corno convencido
ou isto é falsidade?


- Mané estava calado
e calado ali ficou
Pedro perguntou de novo
e Salu não respostou
Pedro disse: - Está com medo?
Repita, então se falou!


Com grande calma, Salu
pôs o cigarro no chão
levou a mão à cintura
puxou sua "conceição"
uma doze polegadas
e a enterrou no balcão.


Cuspiu de lado e falou
como fosse aconselhar
Pedro, você é um corno
isso não pode negar
bastar deixar de ser corno
que eu deixo de falar...


E Pedro bem cabisbaixo
saiu dali descontente
foi pros braços de Julita
chorou copiosamente
lembrando toda vergonha
que passou recentemente.


E Julita consolava
o desditoso marido
dizendo: - Não chores não
ao povo não dê ouvido
eu te amo, tu me amas
é o que importa, querido!


Eis aí caros leitores
uma história bem real
que se deu em Itabaiana
que é cidade natal
do cronista Erasmo Souto
memorialista sem igual.


Através de seus relatos
que achei muito bacana
desenvolvi esta história
que mesmo sendo sacana
ela atesta que se deu
na pacata Itabaiana.


Honório transpôs pro verso
O que Erasmo contou
Naquele livro primeiro
Onde ele relatou
Relíquia da mocidade
Imagens duma cidade
Onde ele se criou.


FIM
TIMBAÚBA-PE, JUL/90.

domingo, abril 01, 2007

A gordinha que se deu bem por causa da Internet


(Versos: José Honório)

Essa tal de Internet
Não há quem possa negar
Trouxe muitos benefícios
Pra quem dela precisar
Também trouxe coisa ruim
Por isso é bom se cuidar.

Nela há como aprender
Dar cabo da própria vida
Fazer bomba, terrorismo
A lista é muito comprida
Dos malefícios que ela,
A Internet, é servida.

Golpes, roubos à distância
Surgem vários todo dia
Também nela se encontra
Sítios de pedofilia
Apologia ao racismo
E também à anarquia.

Tem mulher sendo atraída
Para armadilha fatal
Querendo encontrar um príncipe
Vai pra mão de marginal
Acha a morte quando sai
Do virtual pro real.

Das coisas boas da net
A lista é bem mais extensa
Cada vez aumenta mais
Numa rapidez imensa
A intenção de quem usa
É que faz a diferença.

Informações que se cruzam
Ajudando a salvar vidas
Idéias que perambulam
Nas virtuais avenidas
Levando planeta afora
Atitudes decididas.

Dos quatros cantos da Terra
Faz-se possível o contato
Pra conversar, pra comprar
Às vezes até mais barato
E recebendo na porta
Quase que de imediato.

Amigos que se descobrem
Depois de tempo afastados
Amigos que se conhecem
Sem terem se avistados
Amizades que se nutrem
Pelos toques dos teclados.

Paixões nascendo e formando
Os mais diversos casais
Que descobrem seus parceiros
Por meios não triviais
Nas salas de bate-papo
E namoros virtuais.

Como aconteceu com P.
Que vivia deprimida
Se sentindo mal-amada
Sem achar graça na vida
Só encontrando prazer
Quando a coisa era comida.

Por isso ficou obesa
Se achando uma baleia
Porém não fechava a boca
No café, almoço ou ceia
E nem queria saber
Se lhe achavam bela ou feia.

Era mesmo um mulherão:
Quase dois metros de altura
Comendo como comia
Se ampliou na largura
Quase cem quilos de tara
Diluídos na gordura.

Se tinha o peso em excesso
Tinha também o tesão
Mas não se via capaz
De encontrar um gatão
Que por aquela gordinha
Sentisse alguma atração.

Porém um dia uma amiga
Na net lhe apresentou
Um amigo virtual
Com quem um papo travou
E nesse papo primeiro
Um certo clima pintou.

Depois de muita paquera
De teclado pra teclado
Resolveram se encontrar
Porém no dia marcado
Ele não compareceu
Como haviam combinado.

Ela sentiu-se na "merda"
Mais uma vez rejeitada
Pondo culpa na gordura
Se achando condenada
A viver sem ter prazer
E somente sendo usada.

No entanto concedeu
Nova chance ao camarada
E nessa segunda vez
Acabou recompensada
Com momentos tão incríveis
Que até hoje está passada.

Foi muito grande a surpresa
No seu encontro primeiro
Se foi só esse, quem sabe?
Não se conhece o roteiro
Mas mesmo se foi o único
Seu valor foi verdadeiro.

Quando que ela pensava
Em fazer isso algum dia?
Se encontrar com alguém
Que ela não conhecia
No entanto dentro dela
Um forte desejo ardia.

Chutando o pau da barraca
Querendo dar uma guinada
Pensou: - Nem quero saber
Estava muito empolgada
Imaginando a sessão
De amor com o camarada.

Além do mais, quem diria?
- Nunca tive um homem assim
Bonito, forte, imponente
É muito mesmo pra mim
Um deus grego desse, vixe!
É fogo em meu estopim.

Ela toda ansiedade
Ele calmo e competente
Disse pra ela: - Relaxe
Calminha, não se apoquente
Deixe comigo que eu cuido
De nós dois daqui pra frente.

Olhou-a de baixo à cima
Quase que vira o pescoço
De tão alta que era ela
Nela não viu um só osso
E aqueles quase cem quilos
Não afugentou o moço.

Estavam em devaneios
Na intenção de curtir
Aquele momento único
E não podiam partir
Direto para o bem-bom
Tinha que deixar fluir.

Porém foi lhe tratando
Como um nobre cavalheiro
Depois virou um moleque
Daquele bem presepeiro
Chegando a brincar com ela
De guerra de travesseiro.

Foi assim crescendo o clima
De ansiedade e sedução
Seus corpos se desejando
Transpirando de tesão
Corações acelerados
Também a respiração.

Ajustou a luz do quarto
Deixando um tom de lilás
E já desnudos os corpos
Seus eflúvios sensuais
Incensaram o ambiente
Fazendo-os quererem mais.

Explorou cada milímetro
Daquela mulher tão vasta
Confirmando que a danada
Não tinha nada de casta
E no esporte do sexo
Parecia uma ginasta.

E das teclas para as tetas
Seus dedos se deslocaram
A língua também foi cúmplice
Suas bocas se encontraram
Em beijos alucinantes
Mais de uma hora passaram.

E tome mãos atrevidas
Dedos afoitos também
Passeando sem pudor
Indo até no mais além
Do possível e esperado
Porém lhes fazendo bem.

Depois das preliminares
(Durou uma eternidade!)
Partiram para o serviço
Para a “hora da verdade”
E aí o cancão piou
Foi grande a felicidade.

Dando início aos finalmentes
Ela teve outra surpresa
Ao descobrir que o parceiro
Era mesmo um pé-de-mesa
No tamanho e na grossura
Foi-lhe boa a natureza.

De início se assustou
Nunca viu calibre igual
- Depois dessa estou lascada
Que coisa descomunal!
Será que tenho abertura
Para agüentar esse pau?

No entanto estava ali
Para o que desse e viesse
Não ia dar “ré pra trás”
Pudesse dar no que desse
Pra ter algo como aquilo
Tem até quem faça prece.

Sendo assim, seguiu em frente
Deixou por conta do bode
Pensando: outras conseguem
Por que essa aqui não pode?
Se benzeu e decidida
Se entregou ao pagode.

Como mulher consciente
Informada e prevenida
Perguntou: - e a camisinha?
Ele disse: - Minha querida
Eis aqui, é com você
Prontinha pra ser vestida.

Quem foi que disse que ela
Sabia como fazer?
Ficou toda atrapalhada
Sem querer reconhecer
Que era a primeira vez
Não parava de tremer.

Primeira vez que transava
Naquela situação
Antes só com seu marido
E aí precisava não
De usar preservativo
E nem daquela emoção.

E foi ficando sem graça
Por se ver pagando um mico
Mas ele tomou as rédeas
- Pode deixar que eu aplico
Você só olha e aprende
Se precisar eu te explico.

Depois da bicha vestida
Nada de maior espera
Partiram para o serviço
Ele mostrou ser um fera
Ela tal qual Afrodite
De fazer inveja à Hera.

Os seus corpos se juntaram
Sem querer mais separar
Grunhidos, gritos, sussurros
Ali se pôde escutar
Subiu a temperatura
Viu-se a hora incendiar.

Pegar fogo nos lençóis
As paredes irem ao chão
Tamanho o vuco-vuco
Daqueles dois em ação
Amantes em plena entrega
Aos caprichos do tesão.

Foram horas de prazer
Aventura inesquecível
Principalmente pra ela
Que não achava possível
Novamente estar vivendo
Momento assim tão incrível.

Gastou tantas calorias
Que ia ficar insone
Mas aí não teve dúvida
Pegou logo o interfone
E pra recobrar as forças
Mandou vir um canelone.

Não ia comer sozinha
O canelone fornido
Mas ele se recusou
Dizendo já estar nutrido
Pois o que ele queria
Ele já tinha comido.

Depois da manhã de amor
Cada qual foi pro seu lado
O destino se encarregue
De traçar o resultado
Pois o "hoje" foi vivido
Do modo mais desejado.

Talvez seja um início
Talvez não mais se repita
Talvez lembrança, ou talvez
Esporádica visita
De qualquer forma que for
Nada disso a deixa aflita.

Já se sente satisfeita
Pois fez o que há muito quis
Sentiu-se de novo fêmea
Viveu momentos febris
Se acha ainda baleia
Porém baleia feliz.

Lembrando que essa história
Na net teve o começo
Vê-se que um final feliz
Aconteceu sem tropeço
E que nem sempre se paga
Pelo prazer alto preço!

(Recife-01-04-2007)

domingo, março 25, 2007

Glosa para Chico Pedrosa!


Nosso mestre Chico Pedrosa ficará de molho nos próximos dias, para recuperar-se de uma cirurgia. Num gesto de solidariedade e companheirismos, poetas se juntam para publicar um cordel cuja renda será destinada à ajudá-lo a atravessar esse momento de recesso. A partir do mote fornecido por nosso companheiro Felipe Júnior, fiz a seguinte glosa em louvor do nosso incomparável CHICO PEDROSA:

VELHO CHICO DESÁGUA POESIA
NA RIBEIRA DO NOSSO CORAÇÃO.

Ouvir Chico Pedrosa declamando
é se dar um presente sem igual

porque Chico é somente magistral
é o Divino Poder se revelando

é o sertão nos seus versos se mostrando
pra quem é ou não é lá do sertão
é a fonte sem fim de inspiração
que nos faz navegar na nostalgia

VELHO CHICO DESÁGUA POESIA
NA RIBEIRA DO NOSSO CORAÇÃO.

segunda-feira, março 05, 2007

CONVIVER COM MULHER DESCONFIADA
É ANDAR SOB A SOMBRA DO CIÚME


(Glosas para o mote dado a mim e ao poeta João Campos por Marcone Melo, durante a última Quinta do Cordel, acontecida em 01-03-07):

Não tem paz o sujeito que se enlaça
com mulher insegura e ciumenta
ela pega no pé e sempre inventa
uma briga, uma cima, uma pirraça
se ele olha para quem por perto passa
e repara, discreto, o seu volume
ela diz - vai atrás e se arrume
com essa quenga escrota, essa safada
CONVIVER COM MULHER DESCONFIADA
É ANDAR SOB A SOMBRA DO CIÚME.

Se quiser não ter mais nenhum sossego
com mulher ciumenta case um dia
e não deixe de lado a boemia
(não precisa por lá ter um chamego)
mesmo tendo por ti um grande apego
ela implica só mesmo por costume
cheira a roupa a procura de perfume
e por nada ela sempre faz zoada
CONVIVER COM MULHER DESCONFIADA
É ANDAR SOB A SOMBRA DO CIÚME.

domingo, fevereiro 25, 2007

Versos ainda no embalo da folia!


LEMBRANÇAS DE CARNAVAL

Confiei numa Trinca de Ás
Para ser melhor meu carnaval
Viradouro vira o jogo
Mas não ganha
Pais com os filhotes na peleja
Da Cobra com o Dragão no Arsenal
Um casal transa em plena Rua do Sol
Meninas se beijam na 13 de Maio
Troças e batuques camuflam
A Gomorra
E tome acocho aqui, ali e acolá!
- Vamos beber e amar
Antes que a gente morra!

25-02-2007


FAUNA URBANA

A fauna urbana
Dança à minha varanda
Um beija-flor come os punhos da rede
Onde estou deitado
Um pitiguari canta à gata
De coxas nuas aguardando o ônibus
Que a levará à praia
Onde espera encontrar caranguejos,
Guaiamuns, ostras e camarão
Jamais tubarão!
Vira-latas fazem festa indiferentes
Aos carros e gritos que sacaneiam
O bacante ritual
Enquanto uma poodle suja a calçada
A cachorra da dona não está nem aí!
Pardais equilibram-se nos fios da Celpe
Tão perseguidoras de macacos.
Pitbulls vandalizam veados e nossos orelhões
Um cavalo magricela
Puxa uma carroça entupida de papelão
Há lobos nas esquinas
Ah se fosse só nas esquinas!
Era só evitá-las
Eles sempre estarão onde estiverem os homens.

25-02-2007

sábado, fevereiro 24, 2007

Carnaval 2007-Galo da Madrugada (100 anos do frevo)




Um momento indescritível
Quando os clarins a tocar
Dizem que vai começar
O desfile mais incrível
A emoção é visível
Respiração alternada
Coração em disparada
Na saudável arritmia
É O QUE TEM NA FOLIA
DO GALO DA MADRUGADA.



É algo surpreendente:
Onde o bloco se concentra
O povo em transe entra
Quando o frevo explode quente
Pela energia potente
A multidão é tomada
Aos poucos sendo levada
E logo se extasia
É O QUE TEM NA FOLIA
DO GALO DA MADRUGADA.


Gente em plena liberdade
Dando banana à censura
Brincando sem ter frescura
Saldando a diversidade
Exercitando a vontade
No carnaval liberada
Nos outros dias trancada
Mas nesse tem alforria
É O QUE TEM NA FOLIA
DO GALO DA MADRUGADA.


Idoso, jovem, criança
Gente nova e de idade
Na maior felicidade
Que no Galo se alcança
Guardando boa lembrança
Da experiência passada
Alegria renovada
Sábado de euforia
É O QUE TEM NA FOLIA
DO GALO DA MADRUGADA


Pernambucano delira
Turista logo se encanta
Porque é alegria tanta
Que o povo se admira
Quem duvidar que confira
Veja a Concórdia lotada
Guararapes apinhada
Da profana romaria
É O QUE TEM NA FOLIA
DO GALO DA MADRUGADA.


O abre-alas trazendo
Os demais carros à cena
A cidade se apequena
Quando os trios vão descendo
A multidão vai crescendo
Em tal transe mergulhada
Que não liga mais pra nada
A não ser curtir o dia
É O QUE TEM NA FOLIA
DO GALO DA MADRUGADA.


Roupa leve e colorida
É vestimenta ideal
No coração, alto astral
Estar de bem com a vida
Ir com gente conhecida
Estar atento à cilada
Evitar barra pesada
Ou então má companhia
É O QUE TEM NA FOLIA
DO GALO DA MADRUGADA.


(Trecho de um cordel em elaboração)

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

O ATAQUE DO TUBARÃO
NO BAIRRO DA IPUTINGA
(baseado em fatos reais)


Escutei em Cardinot
Em seu programa outro dia
Uma história interessante
E enquanto aquilo ouvia
Veio no meu pensamento
Transformá-la em poesia.


A história principia
Numa tarde de lazer
Quando um grupo de mulheres
Resolveu então fazer
Uma festa tão somente
Pra curtir e pra beber.


Uma delas se lembrou
Que perto de casa havia
Uma casa com piscina
Cujo dono lá não ia
E a chave dessa casa
Facilmente conseguia.


Ao bairro da Iputinga
Onde esta casa ficava
Foram elas muito eufóricas
E cada uma levava
Bebidas e tira-gosto
Garantida a festa estava.


Chegando, tomaram conta
Da casa, turma porreta!
Ligaram o som nas alturas
Ouvindo Calcinha Preta
Meteram a cara na cana
Sem fazer qualquer careta.


E mais tarde a mulherada
No auge da diversão
Foi pra dentro da piscina
Na maior empolgação
Sem saber que dentro dela
Se encontrava um tubarão.


Um tubarão-tricolor
Rara espécie tropical
Um comportamento dúbio
Apresenta esse animal
Com qualquer coisa se estressa
Mas raramente faz mal.


Mulheres quando se juntam
É garantida a zoada
Tendo bebida no meio
A barulheira é dobrada
Esta festa foi assim
E tome grito e risada!


Todo mundo dentro d´água
Sem querer dela sair
E da cerveja o efeito
Não demorou a surgir
Não deu outra, uma a uma
Ali mesmo fez xixi.


Essa algazarra todinha
E mais a combinação
De bebida e de xixi
Na água, deu reação
Inevitável deixando
“Muito doido” o tubarão.


Até então o sujeito
Tava na dele, quieto
Mas ao sentir o efeito
De tanta mulher por perto
O bicho descontrolou-se
Foi ao ataque direto.


De uma hora pra outra
O tubarão da piscina
Atacou uma por uma
Da vovó à mais menina
Com apetite voraz
Com uma fome ferina.


O tubarão atacou
Todas que estavam ali
Mas dopado com a mistura
De água, álcool, xixi
Não comeu nenhuma delas
Ao menos foi o que ouvi.


Já velho, fraco e doente
Inda mais assim dopado
O tubarão atacava
Deixando o povo assustado
Mas mesmo com tantos botes
Não teve bom resultado.


Nenhuma ali escapou
Do seu ataque voraz
Partia pra cima delas
Ia com gosto de gás
Mas elas se defendiam
Botando o bicho pra trás.


Uma disse: - Te enxerga
Vai-te pra lá, bicho feio
Outra gritou por socorro
Pra sair do aperreio
E a que era mais valente
Para ajudar logo veio.


Uma entrou em desespero
Com medo do tubarão
Revelou-se grande atleta
Campeã de natação
Cruzou a piscina a nado
E nadou até no chão.


Sem sucesso nos ataques
Sem comer nenhum pedaço
De coxa, batata ou polpa
Sentindo o maior fracasso
O tubarão finalmente
Mostrou sinais de cansaço.


E também com as “porradas”
Que levou de muita gente
Deixou em paz as mulheres
Ficou manso novamente
E a festa se acabou
Sem ter maior incidente.


Também acaba a história
Em versos aqui contada

Se foi verdade ou não foi
Não sei disser, camarada
Apenas fiz poesia
De uma história escutada.

domingo, janeiro 07, 2007



O FREVO CONVIDA O POVO
PRA FESTA DO CENTENÁRIO. (*)
José Honório - 07/01/07
__________________________________

Em Nove de “Frevereiro”
Eu farei aniversário
Pois novecentos e sete
Me jogou no calendário
Graças ao Jornal Pequeno
Hoje eu sou um centenário.


Mas sempre serei menino
Nunca irei perder o viço
Quem achar que vou morrer
Preste atenção no serviço
Pois nenhum pernambucano
Vai gostar do meu sumiço.


Cem anos não são cem dias
Por isso meu camarada
Mereço mesmo homenagem
Uma homenagem arretada
Do povo que me ajudou
Enfrentar essa parada.


Parada de resistir
Sobreviver apesar
De todo ataque impetrado
Contra o que é popular
O fervor do povo fez
Ao centenário eu chegar.


Conseguiram me trancar
Na jaula do carnaval
Do gueto de Pernambuco
Quase não saio, afinal
Mas saibam que mesmo assim
Eu sou um bem nacional.


Fico feliz ao saber
Que lembro sempre folia
Carnaval, festa, gandaia
Rebuliço de alegria
Porque sou contagiante
Quem me ouve se extasia.


Mas justiça seja feita
Eu não quero me gabar
Só que eu tenho qualidade
Isso ninguém vai negar
É pena o resto do ano
Ninguém querer me escutar.


Ninguém, não, para ser justo
Eu sei que tem muita gente
Que me escuta o tempo inteiro
Me defende veemente
Reconhece o meu valor
Me promove tenazmente.


Porém muitos me desdenham
Só me dão mesmo valor
Na hora que eu ataco
Sem perdão, seja quem for
Quando em Pernambuco assumo
Meu posto de Imperador.


Porém não sou opressor
Eu divido o meu reinado
Com coco, maracatus
Caboclinho, outro coitado
Que também é esquecido
Por muitos menosprezado.


No carnaval deito e rolo
Não deixo ninguém na sua
Eu provoco inquietude
Faço o povo ir pra rua
Não importando que esteja
Sob o sol ou sob a lua.


Varro as ruas do Recife
E de Olinda as ladeiras
Animando troças como
Elefante ou Pitombeiras
Também nos clubes e blocos
Entro de várias maneiras.


De rua, canção, de bloco
Formam em mim a trindade
Cada qual com seu encanto
Sua especificidade
Provocando em quem escuta
Vibração, prazer, saudade.


Quando eu chego e mando brasa
Onde quer que for eu faço
O povo que está presente
Se jogar logo no Passo
Que é a dança nascida
No rastro do meu compasso.


Folião confisca espaço
No meio da multidão
Com abre-alas, pernadas
Com tesoura e com rojão
Pra fazer os movimentos
Em constante inovação.


Quem sabe mostra o que sabe
Quem não sabe vem disposto
Aprende passo por passo
Se exibe com todo gosto
Se o suor pinga da testa
O prazer lhe cora o rosto.


Pernas e braços afoitos
Numa explosão de energia
Desafiam a gravidade
E também a anatomia
Mas também tem vez o dócil
Bailado da nostalgia.


Dos blocos com seu lirismo
Numa doce evocação
Aos valores do passado
Que presentes inda estão
Nas referências sonoras
Nos flabelos da ilusão.


“Comigo não tem perrepes”
Ou dá ou desce, é assim
Quer seja na Mauricéia
Ou seja lá na Marim
Quem achar ruim que corra
Para bem longe de mim.


Eu estou muito feliz
Não nego a minha emoção
Finalmente dão-me espaço
Merecida distinção
Por toda esta homenagem
Tenho muita gratidão.


Neste momento festivo
Eu preciso agradecer
Àqueles que deram a vida
Pra não me verem morrer
E as novas gerações
Pudessem me conhecer:


Zumba, Antônio Sapateiro
Carnera, Nelson Ferreira
Capiba, Mestre Levino
Zuzinha, Luiz Bandeira
Irmãos Valença e Morais
E Lourival Oliveira.


José Menezes, Ademir
Araújo, Maestro Spok
José Ursicino (O Duda)
Cada qual dando o seu toque
Para que eu sobrevivesse
E não ficasse a reboque.


João Santiago, Senô
Maestro Clóvis Pereira
Nunes, Edson Rodrigues
Formam time de primeira
Levaram-me ao pedestal
Da cultura brasileira.


Lembro também de Getúlio
Cavalcanti, a sumidade
Do frevo dolente como
Os do Bloco da Saudade
Bráulio de Castro e diversos
Valores desta cidade.


J. Michiles, Alceu
Carlos Fernando, Luiz
Guimarães, me renovando
Sem tirar-me da raiz
Espalhando meus acordes
Por norte e sul do país.


Gustavo Travassos, Nena
E Lula Queiroga, Valmir
Chagas, André Rio
Silvério Pessoa, Almir
Rouche e outros tantos
Que me fazem resistir.


Nonô Germano e seu pai
O grande Claudionor
A quem mais devo e sou grato
É o meu maior cantor
Não fosse ele, eu teria
Perdido logo o vigor.


Sivuca, Antônio Maria
Outros nomes não citados
Gênios de diversos gêneros
Por meus encantos tocados
Pra minha sobrevivência
Foram meus bons aliados.


Também devo à Rozemblit
De tão saudosa memória
Graças a ela eu vivi
O meu período de glória
Foi pelas águas levadas
Porém entrou pra História.


Dói ver o samba vendido
Como marca do país
Por que eu também não sou
Qual foi o mal que eu fiz?
O que ele tem que eu não tenho
Quem é aqui que me diz?


Modéstia à parte eu também
Tenho valor para ser
Escutado o tempo inteiro
Bastava a mídia querer
Abrir espaço pra mim
Façam isso, quero ver!


Porém não sou de queixumes
Porque meu sangue é binário
Ferve em mim a alegria
Pra qualquer um eu sou páreo
Vamos meu povo curtir
A festa do centenário.


Orquestra, rabeca, fole
Guitarra, flauta, teclado
Repente, coco, cordel
Cada um dê seu recado
Ficarei muito feliz
Por todos sendo lembrado.


“Quero ver carvão queimar
Quero ver queimar carvão”
Quero ver o povo todo
Celebrando com emoção
O Centenário do Frevo
Tesouro desta Nação.

*********


(*) -Este cordel foi publicado pela Prefeitura da Cidade
do Recife e lançado no dia do centenário do frevo (09-02-07)

sexta-feira, dezembro 22, 2006

DEZEMBROS... Esses natais...



DEZEMBROS
21-12-2006

Vem dezembro chegando iluminado
Com seu branco de neve tão sem clima
Com noéis importados lá de cima
Para um falso Natal ser encenado
Um Natal em que é pouco lembrado
O motivo real deste festejo
Um Natal de consumo é o que vejo
Que o comércio nos vende sem pudor
Um Natal onde o símbolo do Amor
Fica só na lembrança e no desejo.


Vem dezembro com mangas, com cajus
Num verão que se abre tropical
Já trazendo embutido o carnaval
Para os blocos, também maracatus
Nobregando valenças e salus
Pastorando o Azul e o Encarnado
Com o velho Mangaba, debochado
Com Dengoso, Maroto e com Xaveco
Nessa festa que é bem mais que eco
É o presente bebendo em seu passado.


Vem dezembro trazendo já janeiro
Nova etapa, promessa de mudanças
Sendo assim, se renovam esperanças
De harmonia, saúde, paz, dinheiro
Na família e também no mundo inteiro
Porque mesmo quem não precisa mais
Certamente não pode estar em paz
Conhecendo que há fome e precisão
Sendo assim é lutar por solução
Combatendo as mazelas sociais.

segunda-feira, outubro 09, 2006

06-OUTUBRO-06 - Recital na FIR

UNICORDEL EM AÇÃO - Fotos do recital realizado no auditório da FIR, na noite de 06-10-06, por ocasião do encerramento da Jornada de Iniciação Científica da FIR (JONIC) e 1º Simpósio de Tecnologia, Ciência e Educação (SIMPOEDUC) (Da esquerda para a direita a partir de cima: José Evangelista, Paulo Moura, Allan Sales, José Honório, Shyline Queiroz, Edivaldo Cobra e platéia do evento)

domingo, outubro 01, 2006

Palestra no I R B - Registro


O bate-papo no auditório do Inst. Ricardo Brennand foi uma experiência interessante. Lá estiveram meus companheiros da Unicordel, Cícero Lins e Susana Morais, está também integrante da Agenda51, que se fez acompanhada de Suely Morais e Sebastião Aquino. Presença também de Marta Noberto (BNB), Zenilda Ribeiro (FAFIRE) e de meus filhos Pedro Henrique e Ericka Laís. Às pressas deu praescrever um folheto inspirado história da Leda e o Cisne, conseguindo lançá-lo por ocasião desta palestra (mesmo com o sacrifício da revisão), realizando a proeza de num só dia esgotar a primeira edição (15 exemplares). Para quem não teve acesso ao folheto, segue abaixo o texto na íntegra.



A HISTÓRIA DE LEDA E ELISEU
Autor: José Honório

Este fato aqui contado
faz tempo que aconteceu
no sertão pernambucano
na Fazenda São Lineu
Intitulado de História
de Leda e de Eliseu.

Eliseu, o filho único
de Manoel José Furtado
o seu pai, homem de fibra
o filho, um cabra safado
Que na arte de aprontar
pra ninguém foi derrotado.

Estudou na capital
mas não quis seguir carreira
a não ser em vaquejada
ou atrás de bebedeira
era mesmo um filho pródigo
Sempre aprontando besteira.

Em jogo, farra, em orgia
sempre estava ele metido
batendo papo nas ruas
com gente ruim e bandido
mesmo assim por seu carisma
era por todos querido.

No "livro da capa preta"
costumava ele estudar
aprendendo o esoterismo
pra quando preciso usar
graças a São Cipriano
aprendeu até se "invultar".

Ao retornar à fazenda
logo no primeiro dia
percebeu ter carne nova
que ele não conhecia
e ficou logo influído
pensando no que faria.

Esse alguém que ele viu
e que logo o cativava
era Leda Massangana
que há pouco ali chegava
por ter casado com Lucas
que nas terras trabalhava.

Uma negra muito bela
que já nasceu premiada
ancas, pernas, corpo inteiro
a faziam desejada
por todos que a olhassem
mesmo sendo ela casada.

Se muitos se contentavam
só com a admiração
Eliseu, doido que era
não se furtou à paixão
e sem o menor receio
quis entrar logo em ação.

Mas Lucas era zeloso
de honra e bem ciumento
sua razão era a faca
também era truculento
e aos passos de sua esposa
ele estava sempre atento.

Por isso Eliseu não tinha
brecha para se aproximar
da Leda como queria
por isso teve que achar
uma maneira ardilosa
de dela perto chegar.

Descobriu que vigilância
de Lucas se relaxava
era na hora que Leda
lá no açude ficava
para a lavagem da roupa
que na semana juntava.

Um dia, lavando roupa
nossa Leda percebeu
um ganso por lá zanzando
o que nunca aconteceu
e aos poucos se aproximando
parecendo que era seu.

Ganso que é arredio
neste caso foi bem manso
chegando pertinho dela
sem temer qualquer avanço
e Leda sentiu carinho
por seu novo amigo ganso.

O ganso todo amistoso
deixou até ser tocado
quando isso aconteceu
demonstrou haver gostado
batendo as asas feliz
nadando de lado a lado.

E deste dia em diante
sempre que Leda lá ia
não demorava nadica
que o ganso aparecia
levando à lida de Leda
o bom toque de alegria.

E na mansidão das água
a dupla se divertia
o ganso roçando em Leda
sua penugem macia
o tempo passava logo
que ela nem pressentia.

Certo dia lá chegando
o ganso logo avistou
ele eriçou suas penas
tão logo n´água ela entrou
também abanou as asas
espalhando água e grasnou.

Após ouvir o grasnado
uma voz a Leda ouviu
sem saber de onde vinha
sentiu ela um arrepio
mas por incrível que seja
o medo logo sumiu.

A estranha voz falou:
- Leda, não se espante
sou eu o ganso que fala
escute a mim um instante
acho que já está na hora
de eu ser o seu amante.

Desde quando te avistei
que fiquei apaixonado
mas sendo você casada
com marido tão danado
para de ti chegar perto
restou-me vir disfarçado.

Não me peça explicação
a paixão por si se explica
gosto muito de você
e pelo que tudo indica
por você eu sou querido
por isso se justifica.

Se justifica a entrega
sem suspense de novela
- disse isso se chegando
para bem pertinho dela
lhe alisando com o pescoço
fazendo carinho nela.

E por mais que seja estranha
esta cena inusitada
a Leda foi envolvida
qual fosse hipnotizada
não esboçou reação
se mostrou arrebatada.

E por debaixo das águas
a consumação se deu
a Leda foi ao delírio
até de prazer tremeu
sem saber que o tal ganso
na verdade era Eliseu.

Ficou tão extasiada
que ao ganso não deu descanso
pegou no pescoço dele
e num bizarro balanço
enfiou pra dentro d´água
e assim afogou o ganso.

O ato do ganso e Leda
podia ser comparado
ao caso da Cicarelli
com aquele namorado
quando na praia espanhola
este casal foi filmado.

Fim

Escrito na manhã de 30-09-06 (Recife)